O actual contexto de crise económica e social em que se vive, favorece o desenvolvimento de egoísmos e de juízos primários. A crise, porque afecta as pessoas, afecta naturalmente a família e, necessariamente, o seu núcleo: o casal.
Marido e Mulher defrontam-se diariamente com uma realidade de vida tão intensa que só um esforço pessoal permitirá encontrar um pequeno espaço de diálogo a dois.
E quanto é importante esse reencontro diário!
Para se avaliar a sua importância basta referir que, não havendo “comunicação” entre marido e mulher, não se deverá falar de casamento, mas sim de duas pessoas que, por coincidência, vivem na mesma casa e por acaso tiveram filhos.
A comunicação, para ser real e não simples formalismo tem que respeitar algumas condições, nomeadamente a compreensão empática, a congruência e o apreço.
A compreensão empática significa que cada um se coloca na posição do outro para melhor o compreender.
A congruência implica actuação, de acordo com o que realmente se sente e pensa.
O apreço traduz-se no reconhecimento do valor do outro, manifestando-lhe esse reconhecimento.
Quando o cônjuge se coloca no lugar do outro, preocupando-se em descobrir as causas dos seus sentimentos ou pensamentos manifestados ou ocultos, deve fazê-lo sempre com objectividade e sem perder a condição de observador.
Por exemplo, se o cônjuge está triste, não se trata de colocar-se no seu lugar e sentir-se igualmente triste. Trata-se, sim, de procurar descobrir que factores lhe provocaram esse estado de tristeza. Só depois de identificados os factores, a causa da tristeza, se poderá actuar de forma adequada.
A congruência implica que o cônjuge seja autêntico e sincero, não evite temas que são importantes para o casal, mas procure o momento oportuno para o diálogo exprimindo os seus pensamentos e sentimentos de uma maneira inteligente.
Imaginemos uma situação em que a mulher, por diversos motivos, se encontra extremamente cansada, que combinou com o marido uma determinada actuação, mas que à última hora, apesar de ela se ter esforçado por nada falhar, acontece que há algo importante que falha. Numa situação destas, o marido deverá encontrar a calma necessária para compreender a situação que motivou a falha e procurar encontrar uma solução alternativa.
Assim, a congruência exige que se tenha em consideração a pessoa com quem existe a relação, escolhendo o momento oportuno e as palavras adequadas para transmitir o que realmente se sente e pensa e sempre num clima de grande amizade.
O apreço é outra condição essencial ao desenvolvimento da comunicação entre marido e mulher. De facto, se há apreço entre os cônjuges, mas estes não comunicam entre si, é possível que deixem de se sentir unidos um ao outro porque só captam indiferença ou até desprezo.
A capacidade de apreciar e valorar alguém é um processo de descoberta contínua.
Entre os cônjuges deve existir apreço mútuo enquanto cônjuges, mas também enquanto pai e mãe, enquanto amigos, enquanto profissionais, enquanto pessoas.
A vivência de um verdadeiro diálogo entre marido e mulher é tarefa difícil na medida em que as condições de comunicação referidas exigem o desenvolvimento de uma capacidade reflexiva que permita o conhecimento de si próprio e do outro.
Essa capacidade de reflectir tem de existir individualmente e em casal.
Marido e mulher têm de se conhecer a si próprios como pessoas reais, com qualidades, defeitos e capacidades, estudar os seus sentimentos, as suas reacções e as “máscaras” que muitas vezes usam quando confrontados com determinadas situações.
O conhecer-se a si próprio exige uma decisão pessoal, porque muitas vezes é difícil aceitar a realidade, o que cada um é verdadeiramente.
Mas é partindo dessa realidade que cada um se pode assumir como pessoa e travar um diálogo aberto e franco com o outro.
Esse diálogo diário entre marido e mulher, num esforço de atingir uma empatia cada vez maior e sem esquecer de valorizar uma qualidade por pequena que seja, é indispensável para atenuar a rotina e as dificuldades originadas pelo “stress” diário.
O casal tem de conseguir ultrapassar uma visão formalista e esvaziada do casamento e reencontrar a realidade da união conjugal entre marido e mulher, entre duas pessoas “enamoradas” que escolheram um projecto comum e que diariamente continuam a construir o seu futuro um com o outro.
Marieta Pinto in Família em Acção