Perante a grande necessidade de informação e de conselho relativamente ao conselho, cada vez mais espalhado, por parte dos jovens - e da sua iniciação quase desde crianças - nas bebidas alcoólicas, recolhemos o seguinte trabalho do Doutor e especialista em psiquiatria Angel Garcia Prieto, que exerce desde há alguns a sua profissão nas Astúrias, Espanha, com uma vasta e notável experiência.
O autor desempenha cargos directivos no Colégio de Médicos das Astúrias , na ONG Medicus Mundi Astúrias e na Sociedade Asturiana de Psiquiatria. É também coordenador e co-autor de vários livros da sua especialidade e colaborador habitual da imprensa e em emissões radiofónicas e televisivas.
Na mitologia grega encontram-se lendas que, curiosamente, poderiam ter acontecido nos nossos dias.
Uma delas refere-se a um rapaz chamado Faetão, jovem, alegre, audaz e orgulhoso do seu berço nobre: era filho de um deus, Hélios, e da ninfa Climene.
Certo dia, um companheiro permite-se negar essa origem nobre e, como era de esperar, Faetão entristece-se muito. O que fazer para demonstrar que, de facto, é filho de um deus? Pedir ao seu pai Hélios o magnífico carro puxado por soberbos cavalos e assim poder deslumbrar o amigo. Hélios, o pai, resiste a princípio, mas acaba por ceder.
Faetão já tem o carro mais rico e veloz do universo, mas eis que, quando inicia a corrida, os cavalos dão-se conta que o seu cocheiro é um desconhecido inexperiente e precipitam-se numa louca correria, desenfreada e errática. À sua passagem, o carro provoca secas, incêndios e outras catástrofes.
Como é lógico, Zeus irrita-se e para pôr termo à viagem do imprudente Faetão, fulmina-o com um raio que o lança no rio Pó. Aí acodem a sua mãe, irmãs e o seu amigo, o Rei Cicno, para chorarem a sua morte. Elas convertem-se em choupos e o rei em cisne.
Era recorrendo a esta lenda que os gregos interpretavam a origem divina dos excessivos rigores do sol da época estival, mitigados, de vez em quando, por refrescantes tempestades.
No séc. XXI, podemos ler nesta lenda de Faetão uma representação fiel da tragédia tremendamente real que se vive em muitas famílias como consequência do mau uso que adolescentes e jovens fazem dos carros e das motos.
Convém não esquecer que a primeira causa de morte entre os jovens e os adolescentes, desde há alguns anos, são os acidentes de viação e muitos pais resistem, como Hélios, mas acabam por ceder ao desejo que os seus filhos têm de se motorizar. Depois, a inexperiência, a imprudência o álcool da vida nocturna e outros factores negativos desencadeiam o raio dessa trovoada que acaba em drama.
“Os nossos adolescentes actuais parecem amar o luxo, têm males morais e desprezam a autoridade. Não têm respeito pelos adultos e passam o tempo pelas praças bisbilhotando entre si … Têm tendência para contradizer os pais, monopolizam as conversas quando estão com outras pessoas, comem com gula e tiranizam os seus mestres”. Esta frase, completamente actual, é de Sócrates e tem, portanto, mais de 2 500 anos. Por este motivo, pode-se pensar que a história de Faetão tem actualidade e também, por isso mesmo, há amigos que acabam por converter-se em cisnes, mas sobretudo mães, mães que permanecem como choupos ao lado do filho perdido.
No nosso ambiente ocidental e mediterrâneo, com arreigadas tradições de vinicultura e um uso social quotidiano e generalizado do álcool, é um facto incontestável que o consumo do álcool e o seu abuso tem aumentado entre gente jovem. Também parece muito claro que o início deste costume se antecipou de modo notável e alarmante, situando-se, neste momento, nos 13 anos para os rapazes e nos 14 anos para as raparigas (ressalvadas algumas diferenças, de acordo com as amostras estatísticas estudadas no nosso país).
O maior poder de compra, a idade mais tardia em que se dá a emancipação da família e o aumento do tempo de ócio constituem alguns dos factores que se estimam como favoráveis a este fenómeno social, em que os miúdos dedicam a maior parte do seu dinheiro (a partir dos 18 anos, também o carro ou a moto partilham o primeiro lugar neste capítulo dos gastos) e a maior parte do seu tempo de relação e de ócio.
O pico estatístico do consumo máximo, situa-se em torno dos 25 anos, idade a partir da qual a maioria (à excepção daquelas que estão encaminhados por uma mais ou menos clara trajectória de alcoolismo) começa a reduzir as quantidades de álcool consumido. As cervejas e os licores combinados constituem as bebidas preferidas dos mais jovens e o vinho aumenta o seu protagonismo à medida que avança a idade.
No meio rural, a proporção de rapazes que bebem é superior à que existe na cidade. Pelo contrário, as raparigas, por razões sociais e de estilo de vida, bebem mais no ambiente urbano.
O álcool, ingerido e depois metabolizado pelo fígado, converte-se numa substância que se distribui por todo o corpo, particularmente em alguns órgãos, como por exemplo, o cérebro. Por este motivo o álcool é considerado uma droga psico-activa, pois produz efeitos no sistema nervoso central, que vão desde a excitação e desinibição, até à sedação, sonolência e coma, consoante a quantidade ingerida e as reacções – sempre diferentes em cada pessoa – do organismo.
Bebido em quantidades excessivas, predispõe para condutas em que se aliam à falta de controle mais consciente – chamado controle cortical, por corresponder aos limites racionais que têm a sua localização em neurónios no córtex cerebral frontal -, alterações emocionais que dão uma sensação de omnipotência mais ou menos acentuada, bem como uma a diminuição de sensações de percepção. Tudo isto pode chegar a condicionar atitudes violentas, individuais ou em grupo, como brigas e actos de vandalismo... E, claro, euforias perigosas, que se manifestam, por exemplo, na condução imprudente de veículos.
Como substância desinibidora o álcool desencadeia condutas agressivas em relação aos outros – como diz um tratado de medicina legal, o álcool é amigo do crime, - podendo chegar mesmo a provocar vítimas mortais ou danos nos outros, acarretando então as respectivas consequências penais. Pode ainda acrescentar-se o uso frequente de outras drogas presentes em ambientes nocturnos – speed, extasis, outras anfetaminas, cocaína, cannabis. A mútua interacção destas com o ácool pode ter consequências imprevisíveis. Outras vezes são excessos na falta de controle sexual, com o aumento de adolescentes grávidas e as consequências prejudiciais para o feto que o uso habitual de álcool por parte da mãe costuma provocar.
A maioria das pessoas é capaz de beber com moderação, por isso o alcoolismo acaba por ser relativamente minoritário, apesar dos valores absolutos relativos ao número de pessoas alcoólicas serem muito elevados. Há uma percentagem de pessoas que, por um conjunto de motivos, como disposições congénitas, factores educacionais, e hábitos adquiridos, não são capazes de se abster de beber, nem de controlar o que bebem.
A ingestão de álcool produz-lhes uma dependência, com necessidade de beber, aumentar as quantidades, e provocando condutas negativas, não só para a saúde, como para a sua vida familiar, para o trabalho, para a relação com os outros, etc...
Podemos constatar que esta patologia se manifesta em idades cada vez mais jovens. Há anos atrás, a maioria dos alcoólicos eram diagnosticados por volta dos 40. Hoje em dia é frequente encontrar alcoólicos de 20 anos. As frustrações e dificuldades da adolescência, as poucas perspectivas de emprego, um apoio e acolhimento familiar deficiente, muitas vezes em lares monoparentais, privados de um dos progenitores, ou em lares vazios, desagregados por razões imperiosas nuns casos, ou por frívola irresponsabilidade noutros, favorecem uma fuga: o futuro alcoólico escapa-se para uma dose de bebida que o vai sossegar por momentos, para depois lhe exigir outra dose maior.
Claro que não é o consumo de álcool que conduz a situações dramáticas como aquelas que aqui enumerámos. O seu consumo moderado e em circunstâncias apropriadas (por exemplo, se não se tem de conduzir) não só é positivo para a maioria das pessoas, como é também um elemento que serve para animar a vida pessoal e social. Mas quanto maior é a quantidade ingerida, e quanto mais novo é o consumidor, o perigo de existirem consequências negativas aumenta.
Neste sentido, convém ter em conta que a adolescência é um período muito difícil: problemas e tensões interiores, insucessos escolares, frustrações familiares. Por isso os adolescentes procuram, de uma maneira mais ou menos inconsciente, uma compensação no consumo de bebidas alcoólicas que, além de ser falsa, se converte num tremendo risco.
Alguns meios de comunicação social, e em particular as televisões, favorecem uns “consumos sociais de álcool altamente criticáveis; apresentam este hábito como um meio para triunfar, para se relacionar com os outros, para estar alegre ou simplesmente para superar os próprios complexos... Ou seja, legitima uns padrões de consumo pouco apropriados, ao mesmo tempo que apresenta como naturais, inócuas e recomendáveis normas de consumo que são prejudiciais e, até, patológicas.
A família é, em primeiro lugar, o melhor âmbito de prevenção, através do exemplo e do consumo moderado de álcool, bem como de quaisquer outras substâncias psico-activas. Trata-se de que os jovens sejam educados num ambiente em que o álcool, tal como outras substâncias legais tipo tranquilizantes ou anti depressivos , se utilize com tanta moderação como naturalidade.
Não se trata de ser obsessivo com as bebidas alcoólicas, criticando ou proibindo o seu consumo pois, como é bem sabido, o que se proíbe e estigmatiza sem motivo, ou sem explicar devidamente, acaba por ser um incentivo à experiência para a criança e para o adolescente.
O teste do balão só é adequado para as Brigadas de Trânsito. Uma mãe ou um pai não deve dizer ao seu filho ou filha, quando regressa de uma festa: “vamos ver, sopra no balão!”... Este género de controles não tem qualquer eficácia, e algumas vezes termina nos serviços de urgência dos hospitais devido a uma intoxicação etílica. Mais ou menos consciente mente o filho acaba por desafiar o controle paterno, pensando para si: “a ver se descobrem se bebi muito ou pouco...”. A melhor maneira de educar neste tema, como em tantos outros, é o exemplo, a prudência e o dom de saber aproveitar as oportunidades.
A família que experimenta o problema do alcoolismo em algum dos seus membros deve procurar recorrer a tratamento médico e, se necessário, a grupos de terapia ou ajuda. O alcoolismo gera alcoolismo, e não só por via genética, mas também por modelação de condutas, inclusive de maneiras paradoxais. Por exemplo, aquilo a que se chama o fenómeno da “identificação negativa” que, por complexos percursos psicológicos, leva a adoptar as condutas que sempre se recusam e criticam. Assim, não é raro encontrar filhos de alcoólicos que se alcoolizam, e filhas de alcoólicos que se casam com alcoólicos.
Por outro lado, a educação com atitudes de crítica reflectida e madura relativamente a anúncios menos próprios dos áudio visuais - como sejam anúncio televisivos ou filmes em que os personagens bebem a toda a hora e momento -, o apoio carinhoso e compreensivo ante as dificuldades do adolescente, e a proposta de modos de diversão mais saudáveis, o tempo dedicado aos filhos, e outras atitudes familiares positivas, são a melhor prevenção.
Simultaneamente, o meio escolar deve promover actividades curriculares e extracurriculares com este mesmo propósito. E toda a sociedade tem nestes problemas um desafio que é necessário enfrentar e tentar superar por todos os meios.
Àngel Garcia Prieto
Psiquiatra