Neste início do séc. XXI, estamos a assistir a avanços tecnológicos sem precedentes, no âmbito do que poderíamos denominar a revolução digital. Muitos dos nossos filhos já se converteram ou poderiam converter-se em screenagers: crianças e jovens que passam muitas horas colados aos écrans, seja da televisão, dos jogos de vídeo, da Internet, do telemóvel...
Se nós, os pais, não nos quisermos converter em autênticos analfabetos, no mundo das linguagens, símbolos ou capacidades que supõe o manusear das novas tecnologias, temos mesmo que pensar nestes temas. Temos que saber como orientar os nossos filhos, educá-los para os entender: saber o que se passa com eles. Se não nos formamos, se não aprofundamos o suficiente nestes mundos para os podermos alcançar, produzir-se-á o que já se denomina, nalguns estudos, por ciberfractura geracional: o crescimento de um abismo entre gerações que significa que os nossos filhos não nos entendem porque não falamos a sua língua. Um abismo que significa que não sabemos por onde vão, o que lhes interessa, o que lhes passa pela cabeça. Hoje em dia, nós, os pais, temos que ter em conta que nos arriscamos a não saber educar os nossos filhos se não soubermos conviver com eles nem entender o que fazem.
Não se trata de “demonizar” as novas tecnologias que fazem avançar a economia, o saber, a ciência, a transmissão da informação... Contudo, para eles trata-se simplesmente de um jogo, a que chamaremos ócio digital. Um jogo muito atraente, irresistível, que os atrai intensamente, pois leva-os a paraísos de infinitas possibilidades e de grande interactividade, mas também os pode afastar da realidade de cada dia, absorvendo-os na realidade virtual e afastando-os da realidade real.
Partimos de um pressuposto muito claro: as novas tecnologias são neutras, nem positivas, nem negativas em si mesmas. Tudo depende do uso que delas se faça, do tempo que se lhes dedique e da capacidade crítica que se exerça quando é preciso saber situá-las no seu devido lugar. Como pais, temos que afastar qualquer tentação de recusa simplista da tecnologia, como também da exaltação acrítica da última novidade. Devemos fugir de todo e qualquer extremismo: nem tudo é censurável e nem tudo é magnífico.
Temos que aprofundar o mundo dos nossos filhos, perguntando-lhes, lendo, comentando com outros pais, assistindo a cursos de orientação familiar... Há 40 anos só convivíamos com o cinema, o cómico, a rádio; hoje em dia, a oferta de ócio áudio visual é infinita.
Devemo-nos inserir neste mundo e informarmo-nos: o que fazem os nossos filhos com o computador, com os walkman, com a Internet, com os jogos de vídeo, com a televisão interactiva. Não temos outra solução senão “deitar mãos à obra” e concretizar.
Desde já, um conselho simples de expor e mais difícil de levar a cabo: as novas tecnologias em casa devem ser partilhadas: é a única maneira de lhes tirar o jogo, de as criticar, de as valorizar ou recusar. Para isso, convém tê-las num lugar comum, o que facilita o controlo horário, a selecção, o uso partilhado. É claro que não interessa que os nossos filhos tenham todos esses artefactos no seu quarto, disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite.
De dois canais no início dos anos oitenta, passámos às televisões públicas com gestão privada, às privadas e, dentro destas últimas, temos ainda a distinguir as que emitem “em aberto” (toda a gente pode ver) e as digitais (codificadas). Existe ainda a televisão por cabo e as antenas parabólicas que nos põem em contacto com inúmeros canais de todo o mundo. As possibilidades são quase inesgotáveis e os conteúdos imensos. Há televisões em todo o lado, nos cafés, nas casas de chá, nas lojas e nas discotecas. A oferta cresce em quantidade, em lugares de visionamento e em tempo.
Em termos gerais, os miúdos vêm de tudo: futebol, vídeo-clips, reportagens, publicidade... e têm amigos que lhes gravam vídeos ou filmes, alguns não exactamente muito edificantes. Além disso, também podem captar a televisão paga com procedimentos piratas a partir do computador.
Claro que não é sempre assim e nem todas as crianças e jovens estão todo o dia diante do televisor, mas é preciso perguntar-lhes. É preciso encontrar o modo de partilhar com eles gostos e inquietações e dar-lhes chaves de interpretação: trazer um bom filme (dentro dos últimos) para casa, analisar com eles a publicidade, ver vídeo clips e avaliar com eles que tipo de mundo está por trás de cada música tecno, house, dance, etc... É uma tarefa árdua mas necessária.
É essencial manter uma linha aberta com eles para que nos possam contar com clareza o que vêem por aí e, a partir disso, racionalizar, seleccionar e melhorar os conteúdos do que se vê em casa, sem impor sempre conteúdos excessivamente ideais e sem perder de vista os seus gostos. Racionalizar o tempo no exterior: desporto, estudo, amigos, actividades...mas sabendo que a televisão está ali, omnipresente.
JOGOS DE VÍDEO
É um tema que cresce de dia para dia. As grandes marcas debatem-se numa luta sem quartel para dominar o sector oferecendo consolas e jogos. É preciso saber, portanto, que tipo de consolas existe, o seu preço, as suas prestações e, logicamente, também os seus jogos: a origem (pirata ou de compra), a classificação (para maiores, adolescentes ou crianças) e o seu género (plataforma, estratégia, simulação, arcade ou educativos).
Com os jogos de vídeo acontece alguma coisa de semelhante com o que se passa com a televisão: as consolas estão em todo o lado: nalguns clubes de vídeo, na escola, em casa de um amigo ou no quarto do nosso filho. Temos que tomar a iniciativa: convidar ao uso partilhado em casa, com os irmãos, amigos e com os próprios pais. Nessa altura, em comum, podemos explicar os conteúdos, notar que a consola portátil é um mau substituto dos jogos escolares ou desportivos no bairro. Podemos explicar que jogos são adequados e até educativos e quais os jogos que são cruéis e portanto se devem recusar.
Devemos, ainda, recordar os horários, tendo presente que a consola, a televisão e a Internet, se consumidos em excesso, entram em conflito com o estudo, com a companhia de amigos e familiares e com o próprio sono. Temos também que jogar mais com eles, montar algum campeonato em casa, por exemplo, de PC-futebol, com seus amigos e com os seus primos. É importante que não se isolem, que falem, que nos contem coisas.
Como sabemos, com o computador também se pode jogar um sem número de jogos, pelo que é aplicável tudo o que referimos acima. No entanto, o computador também se liga à Internet que, tal como a televisão, é omnipresente: está nos cibercafés, nas bibliotecas, na escola, em casa dos amigos. Eles sabem que, a partir de muitos lugares, podem ter acesso a infinitos conteúdos da rede, por isso, temos que lhes mostrar o que existe este mundo. Em casa podemos ter um filtro para evitar o pior da Internet, mas na rua isso não acontece. Devemo-nos aproximar deles e saber o que lhes agrada: se lhes interessa ouvir música em MP3, frequentar os “chats”, etc...
É muito possível que o lhes interesse seja ligar-se ao Messenger e falar com os amigos, enviar mensagens por correio electrónico ou, talvez, entrar em páginas desportivas. As possibilidades são inúmeras e algumas muito negativas. Temos que as conhecer e conhecer os gostos dos nossos filhos na rede. Talvez em casa não procurem pornografia mas podem fazê-lo fora. Em qualquer caso, não é improvável que lhes agrade fazer de hacker e entrar, saltando barreiras, em sítios fechados, ou piratear programas.
Também existe o que se denomina por jogo on line: em vez de jogar contra a máquina, joga-se contra outros rapazes, do resto do mundo, dentro da Internet, cada um com a sua personagem virtual no écran.
Temos que fazer um esforço e informarmo-nos, tendo presente que os primeiros informadores são os nossos filhos, por isso é preciso ouvi-los! Para que possamos contar com o seu apoio, eles têm que nos explicar primeiro. Partilhar e explicar, seleccionar e construir um horário, negociar horários e conteúdos. Temos que proporcionar um clima de confiança e quanto antes, melhor: televisão, jogos de vídeo e Internet.
O TELEMÓVEL E O WALKMAN
O telemóvel é muito útil nalguns casos excepcionais, como quando os miúdos vão para locais mais afastados, mas levá-lo todos os dias para a escola é um exagero. Converteu-se num brinquedo: faz fotografias e envia-as, grava vozes ou canções e converte-as em sinal de chamada, admite alterações no écran em forma de novos logotipos: Tem ainda jogos de écran muito básicos, serve para ouvir música e enviar as famosas mensagens SMS. Nalgumas idades, essas mensagens são uma paixão: os miúdos enviam-nas a qualquer hora e utilizam uma linguagem críptica e um tanto afastada das regras ortográficas.
Se for mal utilizado, o telemóvel pode levar a comportamentos dependentes, por isso, deve-se usá-lo quando é preciso e, se não é imprescindível, mantê-lo em casa. Para os adolescentes, o telemóvel serve para marcar a sua ligação ao grupo. É preciso actuar com cuidado e conseguir que, desde pequenos os nossos filhos vivam a sobriedade e entendam que para serem aceites num grupo não vale a pena gastar os 300 Euros que custam estes aparelhos.
Relativamente ao walkman, ou ao diskman que lê CD’s, os adolescentes correm o risco de se isolar totalmente com os auscultadores. A música pode ter sido comprada ou pirateada. Se tiver sido pirateada, significa que foram gastas muitas horas a copiar CD’s ou a transferir música, canções ou álbuns em MP3 da rede. Costuma-se dizer que ouvir música com os auscultadores pressupõe um autismo social que não só carrega o cérebro de decibéis, como exige passar muitas horas diante dos écrans, vendo vídeo clips (muitas vezes da MTV) e, sobretudo, diante do computador ligado à Internet.
Temos de orientar os nossos filhos para que não sejam consumidores cegos de tudo o que lhes vem parar às mãos. Temos que conseguir que sejam austeros e, para isso, que tenham gostos, objectivos e um tempo livre muito motivador e organizado: jogos de todos os tempos, desporto, hobbies, leitura, natureza, cultura... E claro, fomentar os valores necessários que os ajudem a melhorar essas actividades.
Neste contexto, as novas tecnologias também terão o seu lugar, estabelecendo uma ordem relativamente à selecção de conteúdos, horário, lugar, forma de uso, etc.. Os pais, sob aviso prévio, não devem perder o compasso se não querem que os seus filhos sejam devorados pela (astuta e nada paternal) indústria do ócio.