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A ARTE DE ENSINAR A ESPERAR

 

 

AS PILHAS DO WALKMAN

 

- Onde vais a esta hora? Perguntou Mercedes à sua amiga Marta, na rua, às dez menos um quarto da noite de um dia de semana.

 

_ Ao hiper mercado, comprar pilhas para o walkman desta chata, respondeu ela referindo-se à sua filha Vanessa de onze anos, ali presente com cara de poucos amigos.

 

- E saíram de casa só para isso?

 

 - Filha, desde há uma hora que me está a aborrecer e eu já não a podia ouvir.

 

 

 Actualmente, todos os pais, pelo menos os sensatos, estão de acordo em que os filhos devem ultrapassar a tendência natural para a preguiça e esforçar-se por estudar e costumam exigir-lhes que cumpram o seu dever. No entanto, quando se confrontam com a tendência dos filhos, também natural, para a impaciência, para querer as coisas naquele momento, a firmeza é muito menor e fazem concessões tão ridículas e pouco educativas como a do exemplo real  que referimos.

 

 

Os filhos não são tolos e dedicam-se a medir forças com os pais para ver até onde podem chegar, no intuito de satisfazer imediatamente os seus desejos. Em muitas casas, são eles quem realmente manda, convertidos em pequenos ditadores capazes de fazer precipitar os pais nos assuntos mais variados, desde as pilhas do walkman até ao menu da família, passando por sentar-se à frente no carro ou pelo momento em que se decidirão a arrumar o quarto. “ Com a minha mãe faço o que quero – dizia com desplante uma menina de seis anos à professora – ponho-me a chorar e dá-me logo o que peço.”

 

Esta falta de firmeza perante os caprichos é uma óptima forma de estragar os filhos, pois quando se enfrentam com a vida já vão enganados, pensando que o resto do mundo se deve comportar com eles como o pai e a mãe. Como não é assim, o impacto muitas vezes é demolidor. 

 

 

OS FALSOS TRAUMAS

 

 

Não é verdade que os filhos ganhem frustrações por se atrasar ou recusar os seus pedidos. Não é verdade que se lhes provoquem traumas infantis de complexos e perigosas consequências na sua vida de adultos por, na infância, não terem podido fazer tudo o que queriam e quando o queriam. É falsa e verdadeiramente perigosa a pedagogia que aconselha a respeitar escrupulosamente a espontaneidade dos filhos, a fomentá-la e submeter-se a ela, prestando-lhe obediência sagrada.

 

É falsa porque, espontaneamente, a maioria das crianças não estudaria, nem se comportaria bem à mesa, nem se levantaria de manhã, nem parava de se insultar ou de lutar. E é perigosa porque os adolescentes que são violentos com os imigrantes também são espontâneos, mas não deixam de ser uma ameaça para a sociedade.

 

Só os multimilionários e os tiranos (até certo ponto) conseguem tudo o que querem com rapidez. As pessoas normais estão habituadas a esperar na fila, a trabalhar com prazos, a poupar, a diferir as decisões, a renunciar, a conter os seus ímpetos…Além disso, as coisas realmente valiosas, como um bom vinho, o prestígio profissional ou uma catedral, nunca se conseguem de repente, mas só depois de um certo processo de maturação. Por estes motivos é importante educar os filhos para saberem esperar, ensiná-los a esperar e assim vão percebendo que, na vida, decorre sempre um tempo mais ou menos longo entre o que desejamos e o seu efectivo cumprimento. Por vezes, isso que tanto queríamos não se cumpre nunca.

 

 

 

FORMAR NA PACIÊNCIA

 

 

Estas ideias ajudá-los-ão a ter paciência quando, por exemplo, não compreendam alguma coisa na aula, ou quando se defrontem com a aprendizagem de uma língua. Não vale a pena desesperar logo à primeira com a desculpa “Não percebo nada disto!”. Os pais devem-lhes lembrar que, se não percebem, não se devem preocupar, pois o professor voltará a explicar as vezes que forem necessárias. Mas é imprescindível que se esforcem, que se empenhem em procurar compreender, que esperem um pouco antes de renunciar, que dêem várias oportunidades à sua própria capacidade intelectual antes de pedirem a ajuda de um professor particular. È ridículo que um rapaz diga, quando está a fazer o 4º ano do Ensino Básico, com 9 anos de idade, que não fará o Secundário por não ser vocacionado para o estudo… O que lhe acontece é que lhe custa cumprir o seu dever, mas isso acontece a todos.

 

Nesta mesma linha, também se tornou relativamente frequente que os filhos não terminem as actividades de tempo livre que começam com muito entusiasmo: acampamentos, aulas de informática, cursos de pintura e desenho … “Quero ir para casa” não deveria ser um decreto-lei a que tem de se obedecer no dia em que os pais visitam uma colónia de férias. “Aborreço-me” não é razão suficiente para abandonar uma aprendizagem bem organizada.  Evidentemente, não se trata de obrigar a realizar coisas sem gosto, que talvez não conhecessem bem. No entanto, se desejamos fomentar a virtude da constância (o hábito de acabar aquilo que se começa), se queremos que aprendam a pôr as pedras mais difíceis (que são as últimas) convém que ultrapassem as dificuldades razoáveis que qualquer actividade humana implica.

 

 

Como vemos, um âmbito muito importante da educação é o tratamento dos caprichos. Neste campo, os avós são mestres na arte de os satisfazer, porque os netos são o seu maior “fraquinho”. Em certa medida, é uma atitude compreensível e até positiva, mas como todas as coisas têm os seus limites, os avós têm de procurar colaborar com os pais e não os exasperar. Não podem “ser do contra”, concedendo sistematicamente tudo aquilo que se nega em casa. Pelo contrário, devem ajudar na educação dos filhos, com o seu estilo e situação particulares, mas ajudar, sem pôr uns contra os outros.

 

 

 

A ATITUDE DE CONTENÇÃO

 

 

Em geral, é muito educativo fazer esperar um pouco os filhos, ainda que se possa fazer logo o que pedem. Com sentido das proporções e sem rigidez, é educativo explicar-lhes com factos concretos que as coisas nem sempre estão já e que o grito “eu quero isto agora” poucas vezes se pode tornar realidade. Devem aprender a aguentar, a conter-se, a contestar os seus próprios impulsos para os regular com o uso da inteligência, estimulada e orientada pelos educadores. Convém também explicar-lhes as razões objectivas por que vale a pena fazer este esforço. Por exemplo, para se levantar da mesa depois de comer, é preciso que todos tenham terminado, mas além de lhes explicar os motivos, se eles próprios apreciam o agradável que é um bocadinho de conversa durante a sobremesa familiar, perceberão melhor a razão deste comportamento.

 

Esta atitude de contenção requer uma boa dose de paciência por parte dos pais, capacidade de aguentar e… sentido de humor. Tudo se torna mais fácil se convidamos a esperar com um sorriso, inclusivamente com alguma piada sobre a teimosia com que eles insistem. Se não perdermos a calma e mostrarmos uma firmeza serena, fazemos-lhes um enorme bem. Os filhos precisam de ajuda para canalizar e represar as energias que lhes transbordam e, com este apoio familiar, tal como os grandes rios, irão deixando à sua passagem, um rasto de vida e fecundidade.

 

 

O TEMPO DE ESPERA

 

Como educar a esperar (e, o que é o mesmo, educar nas virtudes da paciência e da fortaleza) exige uma certa proporção entre o tempo que uma pessoa deve esperar e o assunto em causa, podem ser úteis os seguintes conselhos, agrupados por prazos:

 

Esperar uns segundos: É muito típico que os pais interrompam uma conversa com outra pessoa porque um filho ou uma filha lhes quer dizer alguma coisa e isso não os ajuda nada. È preciso explicar-lhes:”espera um momento, pois estou a falar com esta pessoa e a seguir já te atendo”. Se não sabem respeitar essa conversa não é por serem espontâneos mas por serem mal-educados. O mesmo acontece quando falam com os colegas da aula com os amigos; têm de esperar que o outro acabe de falar antes de eles próprios “dispararem”, senão é impossível que saibam escutar e portanto, que saibam também responder.

 

 

 

 

Esperar uns minutos: o “tenho fome, vamos já comer” não é motivo para alterar o horário familiar ou para não esperar pelos que faltam à mesa nem também o “vamo-nos embora que estou cansado” justifica recortar o tempo que a família deve dedicar aos parentes. Aprender a desenvolver-se na vida com alguma ordem nas horas ensina-os a respeitar o tempo dos outros e a aproveitar bem o seu próprio tempo, também, quando não lhes apetece. Quem leva um grupo de rapazes a uma excursão sabe quais são os locais e os momentos adequados para fazer uma paragem e não deve permitir que seja a preguiça a marcar o ritmo ou a quebrá-la.

 

Esperar umas horas: “Eu quero agora!” Provavelmente agora não se pode ir e tem de se esperar até mais tarde. Isto serve para moderar as impaciências relativamente ao aluguer de cassettes de vídeo, à ida a casa de um amigo, ou ao momento de jogar no computador. Também é instrutivo não os deixar fazer alguma coisa que gostam sem terem cumprido primeiro o seu dever, seja arrumar o quarto, acabar os deveres escolares, ajudar a arrumar a cozinha ou ir ver os avós.

 

Esperar uns dias: “Compra-me hoje!” Salvo casos urgentes, comprar roupa pode esperar pelo dia mais adequado para a mãe, sobretudo se implica algumas deslocações pela cidade. Esperar pelo sábado não traumatiza ninguém e há muitas coisas numa família que não é oportuno resolver durante a semana. O ditador ou a ditadora não se podem impor às obrigações que gera o horário de trabalho dos pais. Como os filhos se perturbam muito se se altera o rimo de aulas e estudo que seguem de 2ª feira a sexta, é preferível concentrar no fim-de-semana tudo o que altere claramente este padrão.

 

Esperar umas semanas: nem sempre é possível esquiar, acampar ou escalar uma montanha pois o mau tempo impõe as suas leis e as circunstâncias que nos rodeiam também. É preciso explicar-lhes para que possam entender os motivos por que se atrasa uma viagem ou um plano previsto com uma certa antecedência. Também devem compreender que se reprovaram num exame, não podem esquecer essa matéria, pois já chegará o momento de uma segunda chamada em que poderão ter êxito.

 

Esperar uns meses: não há um acréscimo de vencimento extraordinário cada 3º dias e alguns gastos especiais têm que esperar pelo Natal ou pelo Verão. O filho deve entender que, ainda que se lhe tenha prometido um computador ou uma bicicleta de montanha, há que esperar algum tempo pela sua chegada. Acontece o mesmo com as viagens, com as obras na casa ou com as trocas de mota.

 

 

Esperar uns anos: cada idade tem o seu âmbito de liberdade, responsabilidade e autonomia. Há coisas que um filho só pode fazer quando tem alguns anos, como seja ir a um acampamento, escolher a sua roupa, ir ao cinema com os amigos, ter um telemóvel ou uma mota, ter uma namorada… “Isso é para quando fores mais crescido” exige aos pais fixar algum momento concreto em que o filho se possa considerar mais crescido e aceder aos seus desejos. Por este motivo, perguntam sempre: “e quando serei mais crescido?” Nesta categoria encontra-se também a construção de amizades autênticas que requerem normalmente um certo tempo para mostrarem o que valem. Face à frivolidade da influência do cinema, que apresenta como normal as relações pré-matrimoniais pouco depois das pessoas se conhecerem, é preciso defender a necessidade de esperar, sobretudo esperar até que o vínculo matrimonial proteja essa entrega mútua da intimidade num contexto de amor autêntico.

 

 

                                                                                  José Alfonso Arregui García