Voltar

A CONVIVÊNCIA  FAMILIAR

 

 

Entrevista com José María Contreras, consultor de formação de executivos

 

 

Não é novidade para ninguém que a convivência quotidiana do casal e da família se pode sempre melhorar. Actualmente, melhorá-la é uma ocupação importante e urgente, porque diversos factores, externos e internos, influem eficazmente na sua deterioração. No entanto, em muitas famílias, não se coloca sequer a questão de melhorar a convivência, ou não se sabe como levar a cabo essa melhoria.

 

Se este esforço, além do mais, ajuda a evitar ou a superar conflitos conjugais e familiares, e permite desfrutar de uma boa convivência quotidiana, porque não procurar uma ajuda orientadora relativamente ao modo de levar a cabo esse projecto? Sobre estas questões entrevistamos José María Contreras, autor de “Pequenos segredos da Vida em Comum” (Colecção “Planeta-Testimonio” 1999), já com várias edições.

 

 

A comunicação é o seu tema preferido, em cursos, conferências e artigos. Porquê?

 

Porque muitos problemas familiares têm a sua origem numa deficiente comunicação entre os cônjuges ou entre pais e filhos. Ouve-se, com frequência, que os casais sofrem de uma grande falta de comunicação. Quanto menos conversam, menos vontade têm de conversar. É preciso reagir face a isto, voltando a reconstruir uma comunicação que só requer cuidar de alguns pequenos pormenores positivos e evitar outros negativos.

 

Para que o amor no casamento não diminua, há que mostrar interesse pelas coisas do outro. Claro que isso implica esforço, mas não há nenhum amor que se desenvolva sem esforço. É preciso saber escutar e interessar-se realmente pelas coisas do outro. Temos que fazer com que as suas coisas sejam minhas e as minhas sejam suas.

 

Se é claro para nós que o amor se deve construir e fortalecer todos os dias, procuraremos pôr todos os meios para comunicar e conhecermo-nos melhor em cada dia. Nunca é tarde para estabelecer esse diálogo que deve existir e romper as barreiras que se possam apresentar neste campo, como são a televisão, a timidez, a pressa, o medo à verdade, etc

 

 

Que fazer se são frequentes as divergências ou as discussões? Deve-se fazer alguma coisa para melhorar essa relação?

 

É frequente que perante uma perspectiva assim se deixem correr os acontecimentos. Há um indicador para saber se as coisas correm bem, que logicamente não mede nada porque estas coisas não se medem, mas marca a pauta, e que é: olhar nos olhos. Se uma pessoa pode olhar nos olhos a mulher, ou o marido, sem desviar o olhar, as coisas vão bem. Se um deles não resiste à mirada do outro – a um olhar contínuo e profundo – algo vai mal. Quando isto acontece com os dois, é porque alguma coisa não corre bem em ambos. Em qualquer dos casos, é o momento de falar e de rectificar, procurando, em cada caso, a solução adequada.

 

 

Trata-se simplesmente de falar ou esse falar implica esforçar-se por conseguir uma boa comunicação?

 

A má comunicação não é só não saber explicar as coisas, mas não saber explicá-las oportunamente. Uma das numerosas causas da má comunicação é a precipitação. O autodomínio ajuda-nos a ponderar o que é necessário dizer, e como dizê-lo, e a procurar o momento próprio para o fazer: a ter o dom da oportunidade.

 

Existe também um tipo de comunicação errada que produz um grande desassossego entre as pessoas: acentuar o que é negativo. Quando levamos anos a conhecer uma pessoa, é lógico que essa convivência nos traga muita informação sobre os seus pontos fracos e fortes. Esse conhecimento deveria servir-nos para estimular a outra pessoa em todas as facetas da sua vida. No entanto, se com frequência e conhecimento de causa usamos essa informação para lhe recordar que não é perfeito (ou perfeita), convidamo-lo a actuar com mau humor, com desconfiança, com receio, levando-o a que erga “um muro” nas suas relações.

 

É evidente que com isto não se quer dizer que não se deva corrigir.  Mas corrigir não é reprovar. Corrigir é ajudar e, para isso, há que procurar o momento oportuno e a receptividade da pessoa corrigida. Lembremo-nos que uma pessoa com valor costuma ser exigente consigo e tolerante com os outros.

 

 

Que pequenos segredos gostaria de realçar, para conseguir uma boa comunicação no casamento?

 

Ser oportuno, ter o dom da oportunidade na comunicação, aproveitar os momentos receptivos da outra pessoa. Saber perdoar e saber pedir perdão. Uma das manifestações mais elevadas da liberdade humana é perdoar. Outra manifestação da liberdade - à mesma altura - é pedir perdão.  Em família, há que pedir perdão, e deverá aceitar-se o perdão com a frequência que seja necessária.

 

Uma sociedade que perde a capacidade de reconhecer o erro e de pedir perdão é uma sociedade que perdeu a capacidade de melhorar, porque perdeu a liberdade e sem liberdade não há capacidade de progresso.

 

Ouve-se muito dizer: “Não interessa pedir perdão, o que interessa é que isto não seja assim”.  E isto é dito aos filhos, à mulher ou ao marido. Colocando-nos no lugar do outro, que sentimentos se podem ter? Se uma pessoa pede perdão e o pede sinceramente (o que custa sempre), e apesar disso não se desculpa o agravo, seja grande ou pequeno, em princípio ela só pode ter um sentimento de impotência: “Que mais posso fazer?”.  Isto gera desconsolo, raiva, um profundo sentimento de incompreensão. É compreensível que perdoar pode ser muito difícil, mas nalgumas ocasiões é a única maneira para que o casal continue unido. Há que ter ainda em conta que perdoar implica esquecer, caso contrário não se perdoa.

 

 

Fixemos estes dois pequenos segredos para uma boa comunicação familiar – e sobretudo matrimonial - ter o dom  da oportunidade e ser capaz de perdoar e pedir perdão.  Quer destacar algum outro?

 

Sim, a confiança. Em qualquer relação interpessoal a confiança é essencial para a estabilidade da relação.

 

Outro pequeno segredo é saber escutar. É muito gratificante sentir-se escutado pois todos precisamos de desabafar. Por isso, há que dar oportunidades ao outro para se expressar, para se sentir compreendido, e para isso há que guardar silêncio, externo e interno. Calar, nalgumas ocasiões, não é fácil, e escutar supõe sempre pôr-se no lugar do outro, saber por que diz as coisas, captar os seus sentimentos. Todos necessitamos de comentar coisas, de ser e de nos sentirmos escutados. Escutar uma pessoa é valorizá-la como merece.  Mais: se alguém se sente habitualmente ouvido, sente-se querido. Todos precisamos de desabafar e aquilo que não sai, acaba por apodrecer.

 

Também há que saber cortar o dia-a-dia que, por vezes, pesa muito. Como se consegue? Surpreendendo. O factor surpresa é fundamental no amor. Uma flor, um ramalhete, um perfume, uma bebida, um jantar, o que quer que seja que sirva para cortar o quotidiano. É necessário para as pessoas se descontraírem, recria o entusiasmo e ajuda a ver as coisas doutra forma. Quanto mais surpreendente for, mais romperá com a monotonia e terá maior capacidade de entusiasmar. Ah! E não é preciso esperar que nos surpreendam. Comecemos nós por surpreender. Vale a pena!

 

A boa comunicação requer também a amizade. A amizade cultiva-se, o que implica cuidá-la, alimentá-la, evitar trovoadas e geadas, compreender estados de ânimo. Cultivar a amizade no casamento vale a pena. A amizade é um bom apoio em momentos difíceis, e é uma forma muito eficaz de crescer no amor.

 

No casamento e na família temos muitas oportunidades de dar alegria aos outros. Quando uma pessoa deseja querer, deseja agradar, e isso manifesta-se em mil e um pormenores. O amor, o carinho, o desejo de agradar fazem crescer a criatividade e o engenho até descobrir mil pormenores que passavam desapercebidos, e que o amor ou o desejo de amar vão descobrindo.

 

“Obras são amores e não boas razões”... diz o refrão popular.

 

O segredo está em entregar-se. Quanto mais uma pessoa se entrega, mais quer. Todos acabamos por querer às coisas a que nos entregamos. Quando uma pessoa se entrega ao seu marido ou à sua mulher, acaba por querer de verdade, sem sucedâneos do amor, sem enganos.

 

 

A boa comunicação requer mencionar também alguns aspectos da sexualidade conjugal?

 

As relações sexuais são muito frágeis., principalmente para a parte mais sensível, mais delicada, que é sem dúvida a mulher. Dada esta sensibilidade, que é muito positiva e faz parte daquilo que a mulher tem de atractivo para o homem, o chamado “sexo seguro” só assegura a possibilidade da mulher não se sentir querida, mas utilizada e “coisificada”.

 

Se despojarmos o acto sexual de qualquer dos seus conteúdos, isso fará com que a relação se torne artificial, e essa artificialidade, no plano da intimidade, é percebida pela mulher como uma entrega do outro apenas em função do prazer. Pode aparecer um sentimento de insegurança: “Só me procura quando quer relações;  e se eu não lhe desse prazer, como me trataria?”

 

Perante estas considerações e outras semelhantes, talvez alguém pergunte: “Então temos que estar abertos à vida, cada vez que temos relações?” Se uma pessoa quer evitar os afectos secundários, em parte referidos, a resposta é afirmativa. Sei que isto não é popular em muitos ambientes na sociedade, como também não é popular dizer a alguém que tem cancro, mas as coisas são como são.

 

O “sexo seguro” está a converter-se numa fonte de agressividade e de falta de amor muito grande. Não podemos esquecer que a separação radical entre sexualidade e abertura à vida é uma bomba-relógio nas relações conjugais.

 

 

Ficam ainda muitas perguntas por fazer mas devemos terminar esta entrevista. Limitar-me-ía às duas seguintes, pensando na educação familiar: primeiro: educar ocupa tempo?

 

Actualmente, é cada vez mais claro que educar é qualquer coisa que temos de aprender. Ser pais não basta; só bom senso, também não. À medida que uma pessoa se vai formando, tem que ir formando os filhos. Isto é o que leva tempo na educação: formar-se. Uma pessoa pode-se formar, pouco a pouco, à base de uma selecção de pequenos livros, bem escolhidos e agradáveis de ler, e que levam menos tempo do que ler o jornal. O problema é querer. Por outro lado, educar não leva tempo. Trata-se de fazer as coisas com uma intenção educativa, e com sentido de continuidade. Nós, os pais, estamos sempre a educar ou a deseducar.

 

É preciso formar-se. Os empresários, para bem gerir os negócios, estão em formação permanente. Estão sempre à procura de um negócio, prevendo possíveis desvios, etc.

 

Pessoalmente, creio que talvez o negócio mais difícil de gerir seja o da convivência. Não basta querer, é preciso saber e é preciso formar-se.

 

 

Para terminar, que contribuição trazem à educação de cada membro de uma família, as conversas familiares?

 

Há um slogan ecologista que diz: ”preocupa-te com o geral e ocupa-te com o particular”. O particular é o que temos em casa. Muitas vezes, em arrebatamentos de generosidade ou de solidariedade, temos vontade de fazer alguma coisa por essas pessoas que sofrem em tantos lugares da terra. Mas não esqueçamos que o particular temo-lo em casa. Em que ambiente se movem os nossos filhos? Que conversas temos em casa?

 

Reconheçamos que muitas vezes andamos alegres na rua, contentes, somos agradáveis, mas quando entramos a porta de casa, mudamos de cara e de atitude. 

 

Quando nas conversas familiares sabemos passar do anedótico ao profundo, para voltar de novo ao anedótico ou ao acontecimento; quando nos fixamos preferencialmente no positivo e não no negativo; quando pomos as pessoas a pensar com uma boa pergunta, ou contamos uma anedota ou um acontecimento que agrada aos outros, etc...,então as conversas familiares estão a contribuir muito para o enriquecimento pessoal de cada um, porque contagiamos optimismo, bom humor, carinho, compreensão, respeito, etc.  Estamos a promover uma cultura familiar própria, de qualidade, muito diferente dessa cultura  “da pressa”, de não ter tempo para os outros e de ter tempo só para as nossas coisas..., ainda que, desgraçadamente, na nossa sociedade, a pressa procure converter-se num  “valor”.

 

O viver para os outros é uma questão de querer. Pode-se sempre recomeçar de novo.

 

 

Oliveros F. Otero