O MELHOR INVESTIMENTO: A EDUCAÇÃO DOS FILHOS
Entrevistamos José Manuel Mañu Noáin, professor do Ensino Secundário, que há mais de 25 anos se tem vindo a dedicar à educação e tem passado milhares de horas a falar com estudantes e pais. É autor de vários livros e colaborador habitual de várias revistas de educação.
A sua experiência leva-o a concluir que não há receitas na educação, mas sim ideias básicas sobre as quais convém assentar a tarefa educativa.
Aos pais de filhos pequenos, anima-os a aproveitar ao máximo essa idade dourada; aos pais de adolescentes, recomenda-lhes, sobretudo, paciência.
MUITOS PAIS PENSAM QUE, PARA EDUCAR, BASTA O BOM SENSO. O QUE NOS TEM A DIZER A ESTE RESPEITO?
Aos nossos avós, talvez lhes tenha bastado o bom senso para educar os nossos pais, mas as circunstâncias mudaram muito. O mundo que rodeia os actuais estudantes mudou profundamente e é preciso tê-lo em conta quando se trata de encarar a educação dos nossos filhos. Não podemos esquecer, como dados orientadores, que um rapaz, quando chega à idade da adolescência, já viu 500.000 anúncios de televisão e já passou mais de
15 000 horas diante da televisão.
No entanto, nem tudo é negativo neste contexto. A televisão oferece muitas possibilidades positivas que os nossos avós não tiveram. Também são maiores as possibilidades de ouvir música de muito boa qualidade ou de ter leituras agradáveis e formativas. Por estes motivos, seria muito interessante, entre outras coisas, passar em revista a videoteca, a biblioteca ou os CD’s à disposição dos filhos, assim como as ligações à internet, cuja presença nos lares é cada vez maior. Para bem ou para mal, as possibilidades são muito maiores.
Hoje em dia, para educar correctamente os filhos, precisamos não só de bom senso, mas também do conhecimento das circunstâncias que rodeiam os filhos, pelo que os conselhos do professor do colégio ou de outros pais amigos podem ser muito úteis. Nesta mesma linha, também podem ser de grande ajuda os cursos de formação e as chamadas Escolas de Pais que alguns colégios organizam.
COMO SE PODE IR EDUCANDO O CARÁCTER DOS FILHOS?
Conforme diz o professor Alfonso Aguiló, as virtudes não se adquirem com a repetição de palestras, mas de hábitos. Nós, os educadores, temos tendência para dar sermões com maior frequência do que a devida. Talvez os passos que indicamos constituam uma boa sequência de atitudes: ensinar, corrigir e exigir. O modo de o levar à prática dependerá da idade do rapaz ou da rapariga. Uma criança pequena, normalmente, não precisa de muitas explicações mas, à medida que vai crescendo, torna-se necessário que as motivações e as razões para o seu correcto modo de actuar sejam mais explícitas e poderosas.
Não esqueçamos que o carácter se forja no esforço diário e contínuo e, por isso, a aquisição de hábitos, traz consigo uma certa facilidade para actuar bem. Por exemplo, aquele que, desde pequeno, se habituou a não perder tempo, terá maior facilidade em ser um bom estudante do que aquele que chega à adolescência sem o hábito da laboriosidade. Nunca é tarde para começar, mas quanto mais cedo o façamos, maior a facilidade que todos (pais, filhos e professores) encontraremos.
Para facilitar a aquisição de hábitos, é importante manter os mesmos pontos de luta e não os mudar desnecessariamente. Quando se trata de exigir, não podemos mudar continuamente de direcção. Estou-me a lembrar do que me respondeu um pai, cujo filho trazia sempre o cabelo pouco asseado, quando lhe sugeri que insistisse neste aspecto: ”Olha, estabeleci algumas prioridades nos pontos em que o meu filho deve lutar e este, de momento, não é prioritário. Mais adiante, abordá-lo-emos”. Pareceu-me um modo excelente de encarar o problema.
Alguém disse que nós, os homens, temos dois ouvidos e uma boca, pelo que devemos escutar o dobro do que falamos. Penso ser este um bom modo de actuar na educação.
QUE CONSELHOS DARIA PARA CONHECER MELHOR CADA FILHO?
Sugeria um que pode dar muito fruto: que marido e mulher dediquem pelo menos 15 minutos por mês para falar expressamente de cada filho. Este intercâmbio de informações e critérios é muito útil e evita fechar-se em modos de ver subjectivos. Nessa conversa deve-se falar tanto de pontos positivos como de pontos a melhorar.
Falar com o professor do colégio é outro modo eficaz de partilhar e confrontar ideias, bem como de descobrir caminhos e modos de proceder interessantes. Esta comunicação fluída entre pais e professores permite educar na mesma direcção, sendo em muitas ocasiões imprescindível para se chegar a bom termo. A mim, como professor, a conversa com os pais dá-me muitas luzes e permite-me conhecer o filho muito mais rapidamente do que se o tivesse de fazer sem ajuda.
TEM-SE FALADO, EM DIVERSAS OCASIÕES, DE “ORFÃOS DE PAIS VIVOS”. O QUE SIGNIFICA ESSA EXPRESSÃO?
A sociedade actual impõe um ritmo que pode trazer consigo, independentemente da nossa vontade, uma desatenção à família. Os miúdos percebem isto desde muito cedo e quando reclamam os seus pais, estes, por vezes não lhes dedicam tempo e quebra-se, ou não se chega mesmo a formar-se, uma relação que seria muito benéfica na adolescência e na juventude. Seria uma pena que algum pai, com o passar dos anos, se lamentasse com a frase: ”quando pude, não quis, e quando quis, não pude...”
É verdade que ganhar dinheiro custa muito esforço e que manter o prestígio profissional requer tempo, mas como não podemos chegar a tudo, é imprescindível hierarquizar os nossos deveres e procurar actuar em consequência.
É um facto comprovado pelos professores nos centros escolares que, em muitos rapazes, é perceptível a falta de atenção por parte dos pais. Nalguns casos (não poucos) para compensar essa falta de atenção, cai-se no erro de lhes comprar demasiadas coisas ou de lhes dar tudo o que pedem, quando muitas vezes, o que precisam é de ser ouvidos, que se lhes dê atenção, e se os compreenda e incentive nos seus deveres. Numa conversa com um rapaz de 11 anos, este comentava-me que gostaria que os seus pais lhe comprassem menos coisas e lhe dedicassem mais tempo. Soube expressar deste modo o que muitos sentem.
QUE CONSELHOS DARIA A UMA PESSOA QUE VAI A UMA REUNIÃO DE PAIS NO COLÉGIO?
Aconselharia a tirar um ou dois propósitos concretos da reunião. Por vezes, encontramos pessoas perfeccionistas que se angustiam pensando em tudo o que devem fazer e não fazem. É preciso ter presente que o resultado da educação depende de muitos factores, não só do empenho dos pais em fazer as coisas o melhor possível. Em qualquer caso, a ansiedade na educação não é boa conselheira: sofre-se e facilmente se desliza para um estilo negativo, que é contraproducente sob todos os pontos de vista.
Procurar solucionar todos os problemas numa semana não conduz a nada de positivo. Neste sentido, é por vezes sintomática a chegada das notas: provocam uma grande pressão na primeira semana e um quase esquecimento ao fim de um mês. A educação é fruto do dia a dia e a melhor oportunidade não é a que já passou nem a que há-de vir, mas aquela que é possível levar a cabo hoje e agora.
É PRECISO EXIGIR PARA EDUCAR?
Sem esforço não há melhoria pessoal. Este princípio é esquecido com facilidade numa sociedade hedonista em que imperam o prazer e os resultados imediatos. Em geral, todos sabemos que se exige pouco e é evidente que a juventude actual é menos recta do que a de outras épocas. O excesso de coisas e a vida fácil não ajudam a tarefa educativa.
Estou-me a lembrar de um casal que, ao tempo em tiveram os seus dois primeiros filhos, gozavam de uma boa posição económica e esses filhos eram uns miúdos moles. Quando, por uma série de circunstâncias, a família se arruinou, mudou o panorama: os filhos que vieram depois dos mais velhos, numa época de escassez, ficaram muito melhor educados, com mais virtudes do que os seus dois irmãos mais velhos.
O ideal é ter o necessário e viver com sobriedade. Um dos melhores caminhos para educar personalidades equilibradas e solidárias é exigir para ser melhor e para ajudar os outros.
A exigência deve ser simultaneamente real e amável. Quando, desde pequenos, se habituam os filhos a este clima, eles assumem-no como qualquer coisa própria da sua casa. Se, além disso, se sabem e se sentem amados, dar-se-ão conta de que a exigência não é fruto do capricho, mas do carinho.
QUE CONSELHO DARIA PARA MELHORAR A VIDA FAMILIAR?
Gostaria de matizar a frase: “ amigos dos filhos”. A amizade deve ser certa e real mas sem se confundir com uma camaradagem incompatível com a exigência. Por vezes, ser pai ou mãe implica estar disposto a sofrer para o bem dos filhos. Principalmente na adolescência, o rapaz ou a rapariga precisam, simultaneamente, de proximidade e de exigência.
Por vezes, aos adolescentes, agrada-lhes, “arregaçar as mangas” e mais do que uma vez fazem-no sabendo que não podem nem devem conseguir a vitória. Não esqueçamos que entendem mais do que parece, sobretudo, uma vez passada a excitação.
Aconselharia a ter, pelo menos, uma refeição por dia com toda a família junta e sem televisão. A família precisa de conviver para fortalecer os laços de união e procurar passar horas “em qualidade e quantidade”.
Numa família, o normal, deve ser haver mais risos do que choros. Encontrar formas de convivência agradável fortalecerá nos filhos o conceito de família e ajudá-los-á a criar um modelo para quando formem a sua família.
A PARTIR DE QUE MOMENTO SE DEVE PÔR UMA PARTICULAR ATENÇÃO NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS?
O melhor momento é sempre o presente, o actual. Indubitavelmente, tudo resulta melhor e mais simples quando se começa desde que os filhos são pequenos. Na educação, tal como na medicina, o importante é prevenir e chegar a tempo. É um erro pensar que como os filhos são pequenos, não se apercebem. Consciente ou inconscientemente vão assimilando um estilo de educar. Todos os pais sabem que se começa a educar um rapaz ou a uma rapariga a partir dos primeiros choros no berço.
É sempre possível rectificar, mas não é fácil. Há pais que não puderam ou não souberam educar o suficiente quando os seus filhos eram pequenos e para eles o melhor momento é agora, o actual. Sem dúvida, nem tudo será de aplicação imediata e talvez alguns defeitos já se encontrem bastante consolidados, mas é sempre possível mudar. As lamentações sobre o passado não servem de muito; o que é preciso é arrepender-se, esquecer e recomeçar.
Aprender com os erros é sempre muito útil e na educação é fundamental. Todos os casais aprenderam coisas com o primeiro que lhes serviram posteriormente para os outros filhos. O importante é procurar rectificar quando se enganaram e olhar sempre em frente.
MAIS ALGUMA OUTRA IDEIA PARA TERMINAR?
É preciso estarmos dispostos a ir contra a corrente. O ambiente que nos rodeia facilita muitas vezes as coisas que comentei. Os filhos devem ver sempre os pais coerentes com o ideal de vida em que apostaram. Como um ideal elevado choca com o ambiente, é importante que os filhos saibam, se for o caso, que a sua família é diferente, que não se rege pela moda, nem pelo que faz a maioria, mas pelo que for verdadeiramente melhor. A excelência requer sempre esforço e uma certa solidão. Sem desprezar ninguém, os filhos devem saber que os seus pais apostaram num modelo de família que não é a que aparece em muitos programas de televisão e em muitos meios de comunicação social, e devem sentir-se orgulhosos dos seus pais e da sua família.
Não se trata de ser exagerados mas de procurar que os filhos recebam o melhor na formação da sua personalidade. Como sabemos, há virtudes muito necessárias que não estão na moda, pelo que, lutar por vivê-las, requer, nalgumas ocasiões, singularizar-se, simplesmente porque a nossa vida e a dos filhos choca com o ambiente. Quando se é coerente, fortalece-se a família, constitui-se um ponto de referência para os outros e, sobretudo, educam-se bem os filhos, o que é o melhor investimento que podemos fazer.
Carlos Azarola