AS DUAS FACES DA TEIA DE ARANHA
O que é a Internet? Toda a gente fala na Internet. A Internet está na moda. Calcula-se que mais de 30 milhões de utentes de dezenas de milhar de instituições e empresas em todo o mundo tenham a cesso à Internet. A uns entusiasma e a outros assusta. Será uma revolução? Será o futuro há muito esperado ou um novo pesadelo infernal? Na Internet «navega-se». É uma maneira de dizer que se viaja, que nos comunicamos a qualquer distância pelo preço de uma chamada telefónica local. O reitor de uma das mais prestigiadas universidades espanholas afirmou há pouco tempo que quem não navega pela Internet, nem que seja a remo, fica à margem da cultura académica actual.
A forma como se viaja é de somenos importância. A questão é: até onde? Na misteriosa rede de comunicações encontra-se de tudo: encíclicas pontifícias, Os Lusíadas, a Bíblia, instruções para fabricar bombas terroristas, pornografia, seitas satânicas,... há de tudo. Se tivermos em conta que, dentro de, em quase todos os lares haverá uma ligação à Internet, é sensato perguntarmo-nos: Onde é que vamos chegar? Onde é que nos levará a aranha que, na obscuridade, tece fios tão subtis como inquietantes?
A resposta não é unívoca. Depende. Para um investigador sério de qualquer ramo, revelar-se-á de todo indispensável entrar na rede, porque de outra forma ficará para trás, perderá o comboio da História e fará em 10 ou 50 anos o que um colega faz em 3 minutos. A quantidade de informação científica que está ao nosso alcance na rede é simplesmente inabarcável e a rede atingirá o ponto de saturação. Por isto mesmo a ligação impõe-se a quase todos. Diz-se que a Internet não vai ser nem mais nem menos prescindível ou imprescindível do que a televisão. Mas não. Isto revela a vontade de eliminar um medo da forma errada: a televisão é prescindível, mas a rede não o será para muitíssimas pessoas, se quiserem viver integradas no mundo do futuro.
O ÊXITO IMPARÁVEL DA INTERNET
A Internet foi criada nos anos 60 como uma rede de ligação entre computadores militares e civis para troca de informações. Eram os anos da guerra fria e o exército dos EUA queria assegurar-se de que, se a comunicação entre dois pontos fosse cortada, a informação alcançaria igualmente o seu destino. A chave do êxito e do funcionamento da Internet reside na forma de enviar essa informação para impedir que um corte nas linhas telefónicas afecte as mensagens. Envia as mensagens em partes que se juntam no destino. Se encontram um caminho fechado vão por outro, e não param até atingir o objectivo. São as vantagens de não depender de uma única rede mas de uma impressionante rede de redes. A teia de aranha é múltipla e não conhece limites.
Hoje a ligação à Internet é como ter acesso, em casa, aos fundos de várias bibliotecas, de forma mais rápida, simples e cómoda. A maioria paga-se (como a televisão por cabo), mas as quotas são mínimas e oferecem serviços muito personalizados, isto é, é o provedor ou servidor quem envia a informação que seleccionámos previamente. Por exemplo, se precisamos de estar actualizados sobre a legislação em matéria de agricultura preparada pela União Europeia, um ou muitos destes serviços encarregam-se de a proporcionar, completa ou só nas áreas que escolhemos. Se tivermos necessidade de uma informação pontual, o processo é o mesmo do que quando nos dirigimos a uma biblioteca ou consultamos uma enciclopédia, com a diferença que o fazemos por telefone e em frente do computador.
A Internet é um êxito na comunidade académica e científica porque permite o intercâmbio de conhecimentos com uma rapidíssima transferência de informação. Também as redes militares e financeiras se sentem beneficiadas pela invenção do denominado dinheiro electrónico. Todos podemos realizar operações bancárias com um clique, fazer compras num supermercado ou numa loja em qualquer ponto do mundo, etc.
As páginas WEB são como um enorme quiosque cheio de jornais, revistas e catálogos a que se acede a partir de casa. Tem de tudo e é apresentado de todas as formas possíveis e imaginárias. Há revistas de viagens, de automóveis, literárias, eróticas, desportivas e sobre qualquer outro assunto.
A rede permite-nos assistir em directo, a partir de nossa casa, a acontecimentos olímpicos nos antípodas. Com a Internet podemos ser simultaneamente emissores e receptores. A rede desenvolve uma sociedade global interactiva. O mundo é uma aldeia mais pequena do que nunca. Poderemos votar através da Internet. Quando os políticos quiserem, poderão ter informação imediata das mudanças de opinião dos seus eleitores... De acordo com N. Negroponte – considerado o pai da era digital e parte interessada – cerca de 50% dos computadores vendidos nos EUA destinam-se a casas particulares. Os relativos defeitos actuais de velocidade de transmissão e de custo global serão, sem dúvida, superados num futuro próximo.
OS PROBLEMAS MORAIS DA ARANHA
Mas, hoje em dia, como afirma um especialista, «a Internet é um meio caótico que precisa de ser ordenado». Negroponte irrita-se com tal diagnóstico porque, obviamente, a rede supõe uma ordem de nível elevado jamais alcançada. E afirma que se trata de “outra” ordem, superior ao que estamos habituados. De acordo. Mas o utilizador não se apercebe da ordem, mas do caos. «A pornografia na rede não ultrapassa 1%». É muito possível. Temos de nos concentrar na enorme percentagem positiva. De acordo, totalmente de acordo. Não voltamos atrás. Mas 1% de um bilião de Euros são 100 milhões de Euros. Temos de nos defender.
Se uma criança se aproxima de um quiosque e pretende comprar uma revista pornográfica é difícil que lha vendam. A natureza da Internet, que é apenas uma rede de ligação e não está fisicamente em nenhum lugar, impede que esta se possa controlar através de leis ou da censura. Na Internet podemos informar-nos sobre como se fabrica uma bomba ou como se faz uma guerrilha urbana.
Não são apenas as crianças e os jovens que estão indefesos perante as possibilidades indesejáveis da rede (pornografia, seitas, jogos apaixonantes que seduzem o mais hábil, quase anulando a sua vontade...). Por muito que nos custe admitir, aquilo que suja uma criança também suja um velho.
COMO DEFENDER-SE DA TEIA DE ARANHA
Como evitar que alguém (os filhos, por exemplo) se encontrem na rede com todos os meios de corrupção inventados pelo homem? Mais: como determinar o que se entende por pornografia, por seita, por publicidade ilícita, por direitos de autor, etc? A legislação difere de país para país e os conceitos do que é imoral e de liberdade de expressão não são menos unívocos. Tudo é possível na rede. Apenas se pode perseguir um emissor quando este comete um delito de calúnia ou fornece uma informação falsa. Contudo, a dificuldade em identificar a origem, hoje em dia, ainda é um problema muito complicado. Como afirmou um especialista da rede, J. Echeverría, «os delinquentes deixam sempre algum rasto, porque a rede memoriza tudo. Mas neste momento sentimo-nos como os primeiros colonos do Oeste. Coincidimos na necessidade de criar um juiz de paz e um xerife, embora não estejamos de acordo no que refere à introdução de juízes locais».
Aproveitar as grandes vantagens que a rede oferece não é difícil. As crianças aprendem-nas na escola e saberão fazê-lo com a mesma naturalidade com que nós usamos a esferográfica, o telefone, etc. O problema consiste em como evitar que os elementos corruptores invadam a nossa casa, a nossa família e a nossa própria vontade.
Matar a aranha é impossível e se não fosse destruiríamos também o tecido que proporciona tantos benefícios. A solução está, uma vez mais, na educação. Neste sentido estamos perante o mesmo problema da televisão. O utilizador tem de se precaver em relação à utilização da Internet. Um catedrático de Biologia confessou-nos que se expôs ao limite, somente com duas horas nas manhãs de Sábado. O auto-domínio é essencial. José Barberá, director do departamento de redes da Fundesco e um dos pioneiros da Internet em Espanha, afirmou: “Uma vez que a Internet é uma espécie de oceano imenso de informação, é necessário ir com cuidado para não se afundar neste mundo novo e não tentar averiguar na primeira vez tudo o que se pode encontrar. Quando alguém visita uma cidade pela primeira vez, se começar a percorrer todas as ruas sem nenhum plano prévio ou sem saber o que é que lhe poderá interessar mais, poderá ficar exausto em poucas horas. É preferível dosear as visitas. O mesmo acontece com a Internet.»
Os problemas morais que a rede apresenta são muitos e complexos. Sendo assim, é preciso ter muito claro que a rede, pela sua dinâmica própria na sociedade actual e na que se prevê para o futuro, é imparável. Não podemos fechar os olhos a esta realidade e ficarmos a lamentar os males que se vão seguir. Como sempre e em tudo - imprensa, rádio, televisão, etc –, o que é inteiramente inútil são os lamentos lacrimogéneos. É famosa a reacção de Otto Hahn, químico alemão que fez a descoberta da cisão do núcleo do urânio, apresentando assim o último anel da cadeia que deu origem à teoria que tornou possível a bomba atómica. A notícia da destruição de Nagasaki chegou ao campo de concentração inglês onde estava preso. Ao receber a triste notícia tentou cortar as veias com o arame farpado que cercava o campo. Os amigos conseguiram dissuadi-lo, mas ele disse-lhes: «Acabo de chegar à conclusão que a minha vida no seu todo não tem sentido. Investiguei pelo puro desejo de revelar a verdade das coisas, e o saber teórico acaba de se converter em poder aniquilador.» Com todo o respeito, não estamos de acordo. O aspecto positivo da sua reacção reside na descoberta da superioridade da questão do sentido relativamente a qualquer outra questão, científica ou não. O seu erro, sem dúvida provocado por uma profunda depressão ou por um lamentável desfazamento da realidade, foi pensar que a descoberta da verdade, qualquer que seja, pode ser um mal. O mal é o mau uso que nós, homens, fazemos do bem. Mas o investigador está inclusivé obrigado a descobrir as verdades e a revelá-las (oportunamente).
COM CIÊNCIA E CONSCIÊNCIA
O absurdo não é uma humanidade com ciência, mas uma humanidade sem consciência. O que deve fazer quem compreenda que é preciso evitar o mal, sobretudo se é grave e incomensurável, é fazer o bem, muito bem. A ciência deve aliar-se à consciência. E a consciência deve comprometer-se com a ciência, com a verdade das coisas. Abundar no bem, intervir na rede, como em todos os assuntos públicos exequíveis, com uma acção positiva. Se a Internet é um feito e um feito benéfico imparável, em vez de uma arma de potencial destruidor imprevisível, é preciso fazer o mesmo que com a energia atómica: procurar a forma de a controlar. E o controlo sem o qual os outros não passam de objectos é o auto-domínio. O séc. XXI será o século do auto-domínio ou simplesmente não será: pode ser o fim dessa tafera na qual nos encontramos há tantos séculos: a humanização. Depende do nosso auto-domínio.
Não é de lamentar esta situação, porque isto obriga-nos a equipar-nos com um conjunto de virtudes morais que sempre foram necessárias, mas que agora significam uma questão de vida ou morte. O progresso das ciências e da técnica pode entender-se muito bem como uma chamada a sermos verdadeiramente homens e mulheres de uma só peça, formados na milícia mais exigente do espírito. Quem não se preste a este «serviço militar» permanente, que não entre em guerra consigo mesmo, com as suas paixões más, com as suas leviandades, com a tendência para olhar só para a superfície ou aparência da vida, sucumbirá, será um frustrado e prestará um mau serviço à sociedade. Chegou o momento – ditoso, em nosso entender - de nos definirmos, de nos comprometermos em consciência com a ciência, de nos comprometermos com o bem para fazer frente ao mal, chamem-lhe o que quiserem. Basta de lamentos. Há que procurar soluções. É preciso cerrar fileiras na educação dos filhos e dos alunos. Não podemos ser tão ingénuos ao ponto de a deixar nas mãos do Estado, o que equivale a deixá-la nas mãos dos partidos mais hábeis, que nem sempre são os mais valiosos.
LIGO-ME OU NÃO ME LIGO?
- Então, ligo-me ou não me ligo?
- Depende. Se tem uma boa razão, ligue-se. Senão, não perde nada em esperar. E sempre alerta consigo mesmo.
Como proteger os mais indefesos, que têm a Internet ao seu alcance mas carecem do auto-domínio necessário para não perecer numa mar de ciladas? Felizmente, vão aparecendo meios que facilitam a protecção, embora fique sempre em aberto uma percentagem de risco inevitável. Existem programas informáticos que servem de filtro e impedem o acesso a determinados conteúdos. Irão comercializar-se mais à medida que a rede se estenda às casas particulares. Mas é preciso ter em conta que, independentemente do preço, rapidamente se tornam obsoletos, porque na Internet se criam páginas todos os dias e de todas as partes do mundo.
Jorge BALVEY
http://www.portaldafamilia.org
Um guia para pais
Carlos Rebelo e António Lopes, Pais e filhos na Internet: guia de navegação on line, Plátano Editora 2002