O PREÇO DA NOITE
Não são poucos os jovens que entendem que a liberdade é um bem tão valioso, que nada vale a pena se tiverem de a sacrificar. Liberdade sem fim e sem limites. Quem quiser que enfie a carapuça. Contudo, quando escolhemos, tornamo-nos responsáveis pela felicidade ou infelicidade que a nossa escolha provoca.
LAMENTOS TARDIOS
A Laura contava-me que quando sai, aos Sábados à noite, tem sempre em conta que não pode gastar todo o dinheiro que leva. Tem de guardar o suficiente para regressar a casa de táxi, pois vive numa zona residencial e tem medo de apanhar o autocarro e de andar sozinha pela rua a essas horas. «Mas o André não te acompanha a casa?» perguntei-lhe. O André é o rapaz com quem a Laura costuma sair. Andam na mesma turma e vivem na mesma urbanização. «Não. Eu tenho de chegar a casa até à uma hora e ele pode chegar até às duas», foi a sua resposta natural.
Já nada nos surpreende, mas não deixa de ser surpreendente que esta incoerência não surpreenda a Laura e o André. Talvez alguns de nós continuemos a pensar de forma medieval, mas para além da cortesia, parece-me lógico esperar que o André sacrifique uma hora de diversão para acompanhar a namorada a casa e poupar-lhe a preocupação de ter de pedir ao taxista que, antes de se ir embora, espere que ela abra a porta de casa. Todos os anos temos conhecimento dos crimes mais incríveis de que são vítimas as jovens que regressam sozinhas a casa. Às vezes são apenas algumas centenas de metros de passeio solitário, e depois o namorado ou quem quer que seja lamenta-se de não ter tido o discernimento suficiente para acompanhar a jovem. Ah, os lamentos tardios! Não pretendo discorrer sobre o medo dos psicopatas, mas sim sobre o sacrifício que faz falta para dar paz a outra pessoa.
TORTURADO PELA DITADURA
O Professor Lorda apresenta, numa das suas obras, um exemplo claro. Um dia encontramos na rua um amigo que conhecemos no estrangeiro. Sabemos que o seu país sofreu recentemente graves convulsões políticas. Foi perseguido e torturado pelas suas ideias políticas, perdeu o emprego e a família ficou fora de si. Não queria renunciar aos seus ideais e a sua vida transformou-se num pesadelo sem saída. Ao ouvir o seu relato, envolve-nos uma onda de simpatia e compaixão. É humano solidarizarmo-nos com quem foi tão duramente castigado. Mas, perante esta situação, há uma coisa que não deixa de nos espantar. «E como é que conseguiste sair de lá?», perguntamos com franqueza. O nosso amigo baixa os olhos. «Já não conseguia aguentar mais. Cheguei ao limite das minhas forças.» E conta-nos, entre lágrimas, que para a polícia o deixar em paz não teve outro remédio senão denunciar os companheiros. Toda a nossa compaixão nos cai aos pés.
Pode obrigar-se alguém a ser um herói? Realmente, não. Parece não existir uma obrigação absoluta de nos sacrificarmos para além de um determinado limite. Mas, interiormente, há algo que nos leva a clamar por uma atitude mais generosa. Parece que não é legítimo construir a minha felicidade ou liberdade sobre o sofrimento dos outros. Talvez não o saibamos explicar por palavras, mas pensamos que o ser humano reclama este tipo de heroísmos.
FARRAS E LÁGRIMAS
Um grande número de adolescentes tem acesas discussões com os pais devido às horas de chegar a casa aos fins de semana. A melhor definição desta idade agitada ouvi--a a um matulão de 16 anos: «A adolescência é a época da vida em que os pais ficam insuportáveis». Do seu ponto de vista, os pais não passavam de uns maníacos fascistas que não faziam outra coisa a não ser pôr entraves à liberdade dos jovens. Os pais não compreendem, não querem compreender, que as formas de diversão hoje em dia não são nem podem ser as mesmas dos avós, e ponto final. Tudo lhes mete medo: a discoteca, os amigos, o álcool, a droga, ou as relações sexuais à conta dos preservativos. Imaginam uma selva sinistra para além das portas da sua casa e querem manter os pintainhos debaixo das asas até ao dia do casamento. Por sua vez, parece que os jovens não compreendem, nem querem compreender, que tudo pareça horripilante aos pais, que a noite os preocupe e que não aceitem que seja normal sair de casa à meia-noite ou à uma hora, depois de terem dormido toda a tarde, para ir passear pelas ruas até de manhã.
Vale a pena determo-nos num ponto que está relacionado com alguns dos aspectos mencionados anteriormente. Refiro-me à felicidade que se procura sem ter em consideração o sofrimento que ela provoca. O Rúben é um bom rapaz, estudioso e normal em muitos aspectos. Mas a noite de Sexta-feira é sagrada para ele e, depois de muitas guerras, conseguiu que ninguém o aborreça quando sai. O pai mostra-se zangado, mas já não lhe dá sermões. Desistiu claramente. A mãe, em contrapartida, continua a tentar através da ternura. Põe uma cara de carneiro mal morto quando o vê sair e suplica-lhe vezes sem conta que não se demore muito. Mas o Rúben é duro e não faz caso dela. «Nunca há-de compreender», pensa. O curioso é que Rúben sabe que a mãe ficará acordada à sua espera até ele chegar. Reparará nas olheiras e na marca das lágrimas na manhã seguinte, mas não se deixará comover, pois seria alvo de chacota se deixasse os amigos pendurados para que a mamã não chore e possa dormir.
DANÇAR COM A MAIS FEIA
Agora vem a propósito perguntarmo-nos se temos o direito de fazer o que nos apetece sem que nos afecte minimamente que os outros sofram pelas decisões que tomamos. Quando o meu divertimento sai tão caro aos outros, não poderia ao menos pesar-me na consciência? Há alguns dias falei com o Jorge, um rapaz de 15 anos. Vários rapazes tinham feito uma aposta para ver se ele era capaz de se envolver com a Mariana, uma jovem muito feia mas “fácil”, segundo o catálogo do grupo. O Jorge sentiu que a sua virilidade estava em causa e decidiu seduzi-la. Não foi preciso insistir muito. Em poucos minutos a Mariana era dele, se não de alma, pelo menos de corpo. O que destroçou o Jorge foi que no dia seguinte todo o grupo foi à escola da Mariana chamar--lhe feia e contar-lhe que tudo não tinha passado de uma aposta. O resultado da brincadeira foi a Mariana desfazer-se em lágrimas, o que fez aumentar as zombarias dos rapazes.
Não se sabe muito bem para quem, mas convidar a mais feia para dançar pode ser um acto de cavalheirismo. Os mesmos e as mesmas que nos dizem que no rol dos seus filmes preferidos está “Cyrano de Bergerac” ou “O Primeiro Cavaleiro”, isto é, histórias românticas nas quais se aposta no amor profundo para além da beleza física, participam nestas brincadeiras cruéis sem que se pareçam importar com o sofrimento que provocam. Há uma ponta de cinismo na frivolidade, por vezes verdadeiramente engenhosa, com que nos habituamos a tratar temas sérios.
UMA BONITA HISTÓRIA DE AMOR
A Bíblia conta algumas histórias de amor verdadeiramente maravilhosas. Uma delas é a longa relação de Jacob, filho de Isaac, com Raquel, filha de Labão. Pode ler-se no capítulo 29 do Génesis. Apaixonaram-se num oásis do deserto e foi arrebatador. Mal se viram souberam que tinham sido feitos um para o outro. Parece o argumento de um filme romântico. Mas os costumes da época eram outros e Labão, o pai da jovem, ao ter conhecimento das pretensões do rapaz, decidiu pô-lo à prova. Pediu-lhe, nada mais nada menos, que trabalhasse para ele gratuitamente durante sete anos, e então lhe daria a mão da filha. Jacob trabalhou de graça durante os sete anos, porque a sua amada os merecia. Um guionista de Hollywood encheria o filme de olhares à distância entre os dois, em sequências rápidas, junto do riacho ou quando Jacob transporta a lenha ou ara e ela passa perto dele com um cesto de fruta sobre a cabeça. Passados os sete anos Labão engana Jacob. Não lhe dará a mão de Raquel. Pelos sete anos que passaram tem direito a receber Lia, a irmã mais velha. Seria uma vergonha casar a mais nova e deixar a filha mais velha para tia. Lia tinha uns olhos meigos, mas Raquel era esbelta e bonita, e era dela que Jacob gostava. «Pois por ela terás de trabalhar no duro mais sete anos», acabou por lhe dizer o simpático sogro. A Bíblia conta que Jacob aceitou o pacto e era tão grande o seu amor por Raquel que os sete anos “lhe pareceram dias, pelo amor que lhe tinha”. A história acaba bem, pois Raquel dará a Jacob os seus dois filhos mais queridos, José e Benjamim.
LIÇÕES DE GENEROSIDADE
Quando se gosta de alguma coisa, e mais ainda, quando se gosta de alguém, pode e deve exigir-se esse grau de heroísmo que supõe o sacrifício pelo que se ama. Há casos em que se acaba por conseguir o que se deseja, mesmo que outros fiquem magoados, porque vale a pena. Se uns pais se opõem ferozmente a que a filha saia com determinado rapaz, por razões inconsistentes, a jovem está no seu direito de continuar com o noivado ainda que isso os faça sofrer. Mas, será lícito aplicar esta regra a todas as situações? Se as razões pelas quais os pais se opõem não são estúpidas, mas afectam todo o seu sistema de valores, porque por exemplo o tal rapaz é casado ou divorciado, então construir a minha felicidade sem me deter a pensar se isso destrói a felicidade de outros é muito duro e o mínimo que se pode pedir é que se pense muito bem e demoradamente.
Seguindo esta regra, cabe-nos aconselhar o André a maçar-se um pouco e a acompanhar a namorada a casa, mesmo que isso o faça perder uma hora de farra; ao Rúben que chegue cedo a casa alguns dias para que a mãe respire tranquila, porque a sua vidinha nocturna bem pode pagar uma noite na feira popular com a mãe, o pai e os irmãos; e a Jorge, que entrou de forma tão impetuosa na vida e na intimidade da Mariana, cabe pedir-lhe que se deixe levar pelos seus bons «instintos» e aguente a pressão do grupo porque a sua descortesia está a fazer sofrer outra pessoa. Mais do que lições exemplares e de cavalheirismo, são lições de generosidade.
OS IMPORTUNOS 0,7
Há alguns anos, toda a Espanha se maravilhou com a resposta generosa de milhares de jovens à convocatória para se manifestarem a fim de pressionar o governo, para que destinasse 0,7% do PIB para ajudar os países em vias de desenvolvimento. Ninguém duvida que, demagogia aparte, o mundo juvenil é generoso por natureza. Mas há qualquer coisa que soa a falso neste assunto quando comparamos essa generosidade sem limites para com os que estão longe, com o facto de serem incapazes de aplicar a mesma nos contextos mais próximos: a família, a namorada, os amigos... Se se pode exigir um herói para ajudar as vítimas do furacão Mitch, também é possível esperar esse heroísmo para aturar o avô que tem Alzheimer, ou para sorrir à Filipa gorducha que não se resigna a que eu saia com a Madalena, ou para emprestar os apontamentos ao aborrecido do João, com quem gozam todos os colegas da turma. Heroísmo esse que nasce de sabermos quem somos e quem são os outros, em que consiste a felicidade que se pode experimentar neste mundo e como é imprescindível darmo-nos aos outros, se realmente queremos ser felizes. «Só aquele que quer servir sabe o que é a liberdade» diz o Rei Artur (Sean Connery) a Lancelot (Richard Gere) no filme “O Primeiro Cavaleiro”.
Convém que nos apliquemos a compreender e a ensinar a servir, o que no fundo não é mais do que desenhar livremente a minha existência com um novo sentido: aquele em que os que nos rodeiam adquirem o papel de protagonistas, e não apenas de figurantes, no filme da minha vida. A minha liberdade, a liberdade deles, a harmonia dos muitos “nossos” que se entrelaçam nas vidas de todos. Portanto, perante qualquer situação, mas de maneira especial as mais importantes, tenho o dever de perguntar a mim próprio se a minha atitude contribuirá para fazer um mundo melhor e não apenas se me proporcionam uma vantagem apenas a mim. Se desconfio que a minha escolha vai provocar um dano ou pena a alguém, tenho de avaliar seriamente se vale a pena.
Javier Laínez