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CLONAGEM HUMANA

 

 

 

Chama-se clonagem ao processo pelo qual se produzem, a partir de um só organismo, vários indivíduos geneticamente iguais ao primeiro. Aos descendentes idênticos ao original, chama-se clones. Será isto novo na natureza? Não. No reino vegetal existem muitos exemplos deste fenómeno. Quem é que não experimentou levar um ramo de uma planta do jardim do vizinho, na esperança de que se desenvolva no seu próprio jardim? No reino animal também se dá este fenómeno, sobretudo em seres menos evoluídos, como as bactérias, por exemplo. E pode mesmo dar-se acidentalmente nos animais evoluídos, como os mamíferos, incluindo o homem: nos irmãos gémeos verdadeiros, estes são como duas gotas de água, iguais, mas distintas.

 

ENFRENTAR OS DESAFIOS ACTUAIS

 

JOÃO Paulo II advertiu para o perigo de negligenciar os temas biológicos que tanto preocupam o homem de hoje: “Deve prestar-se especial atenção a alguns aspectos da radicalidade evangélica que frequentemente são menos referidos (...), refiro-me ao dever de se comprometer na defesa do respeito pela vida de cada ser humano desde a concepção até ao seu ocaso natural. Do mesmo modo, o serviço ao homem obriga-nos a proclamar, oportuna e inoportunamente, que quantos se servem das novas potencialidades da ciência, especialmente no terreno das biotecnologias, nunca podem ignorar as exigências fundamentais da ética, apelando talvez a uma discutível solidariedade, que acaba por discriminar entre vida e vida, com o desprezo pela dignidade própria de cada ser humano” (Novo millenio ineunte, n.51).

 

Um dos maiores desafios actuais da biotecnologia nesta sociedade do terceiro milénio, teve lugar em Fevereiro de 1997. O impacto da notícia de Dolly, a ovelha clonada em Edimburgo, foi colossal. Em Março de 2000, estes mesmos laboratórios mostraram 8 porquinhos clonados com a mesma técnica. A importância desta última experiência está na semelhança que existe entre os órgãos do porco e os do homem, ampliando assim a esperança de transplantes nos humanos num futuro próximo.

 

A comoção mundial motivada por este êxito no mundo científico e na opinião pública foi enorme. As diferentes opiniões expressas quanto às possibilidades técnicas que a clonagem oferece, mostram uma boa dose de fantasia, mas também as obras de Júlio Verne pareciam inverosímeis aos seus contemporâneos.

 

A EXPERIÊNCIA EM QUESTÃO

 

Para que o processo seja compreensível, é necessário explicar duas ideias básicas em Biologia: primeira, todas as células têm núcleo, e nele encontra-se toda a informação genética do ser vivo íntegro (em qualquer núcleo de qualquer célula de qualquer tecido está guardado todo o genoma!); segunda, as células femininas aptas para ser fecundadas são muito ricas em alimento e chamam-se ovócitos. A experiência consistiu, basicamente, no seguinte:

 

Extraiu-se o núcleo de uma célula do tecido mamário da ovelha A. Introduziu-se esse núcleo num óvulo ou célula feminina da ovelha B, mas que não possuía núcleo, porque fora retirado previamente; ou seja, propriamente falando não era uma célula. Sem núcleo, tinha-se convertido num corpúsculo, com forma de célula, grande em comparação com elas, que armazenava muitas substâncias nutritivas. Ao introduzir o núcleo da ovelha A nesta despensa da ovelha B, voltou-se a converter numa nova célula mista. Esta nova célula sintética possuía a grande reserva alimentícia do ovócito vazio da ovelha B e o núcleo com a informação genética da ovelha A.

 

Esta célula especial foi implantada na fêmea C que fez de “ovelha mãe de aluguer”. Foi ela que levou a termo a gestação e que deu à luz a tão famosa Dolly. Portanto, de que ovelha é filha a clone Dolly? Ovelha A, que forneceu o núcleo e com ele toda a informação genética.

 

Foi esta a experiência realizada. O baixíssimo rendimento desta é prova da sua dificuldade. Fizeram-se 277 fusões ovócito-núcleo doador. Só 8 tiveram êxito; quer dizer, só 8 das 277 iniciaram o desenvolvimento, e desses embriões só 1 chegou a nascer: a ovelha a quem chamaram Dolly. Contudo, a grande novidade desta experimentação consiste na demonstração de que o material genético das células somáticas diferenciadas, neste caso das mamárias, pode recuperar a capacidade que se acreditava ser própria e exclusiva das células embrionárias. Dolly e a ovelha A são absolutamente idênticas, mas de diferentes idades. A ovelha A é mãe de Dolly, sem necessidade de pai.

 

Que vantagens tem a clonagem animal? Bastantes; por exemplo: se a ovelha A tem qualidades excepcionais quanto à produção de leite ou está programada para que produza uma substância natural curativa, teremos uma reserva natural, um laboratório vivo inesgotável, do dito medicamento. O interesse comercial é enorme para animais transgénicos, criados para produzir substâncias de valor terapêutico em leite, sangue ou como banco de órgãos.

 

PODE JUSTIFICAR-SE A CLONAGEM HUMANA?

 

As investigações avançam muito rapidamente. Existe uma espécie de loucura colectiva por parte dos investigadores, pelo prazer de manejar o desconhecido, que os faz esquecer as normas mais elementares de deontologia profissional nas áreas da experimentação científica. Referimo-nos à possibilidade da clonagem humana. Poderíamos deter-nos em dificuldades técnicas, que hoje ainda existem, mas que possivelmente desaparecerão amanhã. Dentro da possibilidade da clonagem humana é preciso distinguir dois fins possíveis: os terapêuticos e os reprodutivos.

 

Como acontece sempre com todas as coisas que atentam contra a dignidade humana, estas questões não são apresentadas com a crueza filosófica que supõe tratar o homem como um ser irracional, mas sim alegando casos “piedosos”, geralmente excepcionais. Assim entrou o aborto, em resposta ao caso “piedoso” de filhos não queridos por violações de raparigas; a eutanásia quer entrar como a “doce morte” para que o idoso ou o doente terminal deixem de sofrer, etc.

 

No caso de que estamos a tratar, a entrada “piedosa” é a medicina curativa. Por exemplo, trazer células de medula óssea clonadas para doentes com cancro. Isto, que seria tão válido como o é a cultura de epitélio para centros de queimados, funciona como a ponta de um iceberg para outros fins ocultos: desde reproduzir a imagem de seres defuntos, até à de seleccionar uma raça de indivíduos saudáveis e imunes a certas doenças genéticas.

 

Para conseguir mais facilmente o consenso, a opinião pública foi levada a acreditar que se poderiam produzir células e tecidos por clonagem de outras células e tecidos, sem considerar que tal procedimento implicaria necessariamente a geração de embriões humanos, não destinados a ser transferidos para o corpo da mãe, mas sim com o único fim de utilizar as suas células e depois ser destruídos. Este “malentendido” levou a que muitas pessoas pensassem que tais processos podiam ser julgados de forma positiva, pois teriam uma finalidade terapêutica de grande valor para a cura de determinadas doenças, e não lesariam a integridade do ser humano.

 

Como frequentemente acontece nestas situações, criou-se um dilema: ou deixar o caminho aberto para essa solução benéfica e científica, ou impedir o progresso da ciência, tornando-a vitoriosa sobre doenças degenerativas, como o Parkinson, os diabetes ou a leucemia. Na realidade, sob aparentes fins terapêuticos está camuflada na indústria farmacêutica uma verdadeira clonagem de indivíduos humanos.

 

A VERDADEIRA FINALIDADE DA CLONAGEM HUMANA

 

Económica: a fabulosa quantidade de dinheiro que investem os laboratórios e clínicas. Não podemos esquecer que após trinta anos de negócio com a fecundação in vitro, os congeladores estão cheios de embriões congelados. A clonagem como negócio seria muito mais que dar uma saída aos problemas, seria aumentar os lucros e, ainda melhor, conseguir novos embriões, utilizando em alguns casos os que se mantêm congelados. Os fins, aparentemente terapêuticos, são reprodutivos.

 

Há aqui um grande negócio. Assim o atesta a feroz competitividade que existe entre as cerca de 300 clínicas privadas de E.U.A., as quantias de dinheiro que estão em jogo, e a falta de escrúpulos que se evidencia para algo objectivamente tão feio como é guardar “cópias de segurança” do clonante. O uso da clonagem permitiria obter um produto específico e abundante, que alimentaria as arcas da já florescente actividade biotecnológica.

 

É preciso advertir que, na hipótese de que a clonagem fosse alargada à espécie humana, esta réplica da estrutura corpórea não supõe uma perfeita identidade da pessoa. A alma espiritual é criada directamente por Deus e não pode ser gerada pelos pais, nem produzida pela fecundação artificial, nem clonada. Isto vê-se naturalmente nos irmãos gémeos.

 

A clonagem cria desejos de omnipotência: ser como deuses é uma expressão diabólica que, desde o princípio da história, ressoa nos ouvidos do homem. Cada indivíduo é fruto de um processo vital biográfico. Mesmo um gémeo tem respostas diferentes, ante os mesmos estímulos, das do seu irmão gémeo, devido à sua liberdade. Uma liberdade que é sempre criadora, na medida em que imprime respostas singulares muito diversas, ainda que se verifiquem situações idênticas.

 

 

RAZÕES BIOLÓGICAS PARA NÃO ACEITAR A CLONAGEM HUMANA

 

1º  O sexo, antes de um mecanismo reprodutor, é um gerador permanente de diversidade e individualidade genética. O vigor das populações naturais, incluindo a flexibilidade da sua resposta a novas condições e, portanto, a resistência às doenças, é devido, em grande parte, à sua variabilidade genética. Por exemplo, devido à clonagem, todas as bactérias são iguais, e um antibiótico específico adequado mata-as a todas. É legítimo pensar que aquilo que está bem para as bactérias, que são seres tão básicos e pouco evoluídos, não será conveniente para os mamíferos, principalmente para os humanos.

 

2º A cópia genética, ou clone, cria uma desigualdade enorme em prejuízo do clone. O saber demasiado sobre o clonante, o seu destino e as suas possibilidades, anula as hipóteses de um normal desenvolvimento psíquico. Se respeitamos o direito de toda a vida humana a encontrar o seu próprio caminho e ser uma surpresa para ela mesma, a clonagem fica vedada.

 

3º As técnicas de clonagem implicam um número elevadíssimo de fracassos que se traduzem em mortes prematuras, vidas inviáveis, malformações, defeitos genéticos, etc. Se se decidisse clonar seres humanos, teria que se proceder como com os animais: com tentativas e erros, o que significa que, propositadamente, se vão criar grande número de vidas humanas inviáveis ou afectadas.

 

MORALIDADE E PROGRESSO CIENTÍFICO

 

A razão que pode levar a justificar a clonagem humana, é a ignorância sobre a dignidade da pessoa. Um animal não é o seu genoma, e muito menos o é o homem. Fabricar clones de seres humanos, sob a falsa crença de que assim conseguiremos seres idênticos, supõe coisificar efectivamente os seres assim obtidos, reduzi-los à categoria de objectos, a coisas. Esquecer-se-ia o valor da dignidade humana. A clonagem nega, na sua própria essência, que os seres humanos possam ser fim em si mesmos. Quer dizer, a clonagem supõe um ser criado para algo, daí a imoralidade desta operação.

 

Os seres humanos produzidos com um plano ficariam marcados desde o início, pois os normais vêm ao mundo sem estar pré-determinados para um projecto. É um modo tremendo de escravatura. Seriam cobaias humanas para toda a vida, e violar-se-ía o princípio de igualdade de oportunidades que tanto já afligiu a nossa história.

 

Oferecendo um juízo ético sobre os projectos científicos de clonagem por parte dos governos de Estados Unidos e Inglaterra, João Paulo II deixou bem claro que as tentativas de clonagem humana “com o fim de obter órgãos para transplantar, em quanto implicam manipulação e destruição de embriões humanos, não são moralmente aceitáveis, apesar do seu fim ser bom em si mesmo”. Uma vez que o embrião humano possui já a dignidade de uma pessoa humana, a sua eliminação ou clonagem constitui um grave atentado contra o próprio ser humano.

 

O Papa e a Igreja não se opõem, por isso, ao progresso científico, antes pelo contrário, exigem um progresso humano. Animam até a ciência a procurar outras formas de clonagem que não suponham a geração de embriões. É nesta direcção que deverá seguir a investigação se quer respeitar a dignidade de todos e cada um dos seres humanos, incluso no seu estado embrionário.

 

Pedro Beteta,

p.beteta@teleline.es

Doutor em Teologia e Doutor em Ciências Biológicas