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COMEÇAR POR SI MESMO

 

 

CENOFA - Centro de Orientação Familiar

Título Original: “Emplezar por uno mismo”

Autor: Alfredo Esteve

Tradução de: Verónica Reis

 

 

 

É surpreendente a expressão que algumas vezes se ouve da boca de certos pais quando algum dos seus filhos faz um disparate: ”Não sei a quem saíu esta criança!” É a situação típica que se dá quando a criancinha diante de alguém mais ou menos conhecido faz uma das suas e os pais, talvez ligeiramente envergonhados perante o descaramento, a travessura ou a “gafe” do seu rebento, deixam bem claro que isso não tem a ver com eles, mas é coisa da criancinha. E eu perguntei: ”Então se o rapaz não saíu a eles, a quem saiu, ao vizinho do quinto andar?”

 

 

Acontece, efectivamente, que por vezes os pais não se reconhecem no comportamento dos filhos e não se sentem directamente responsáveis. Dá a impressão que não têm nada a ver com o caso, e por vezes não entendem porque é que os filhos actuam de determinada maneira. Pensam logo que nunca lhes ensinaram esse comportamento e podem até ter razão: directamente nunca lho ensinaram, mas talvez indirectamente, nos pequenos pormenores do dia a dia, os estejamos a convidar a tomar essa atitude que tanto nos surpreende. Este é um tema mais sério do que à primeira vista parece, porque está em jogo a educação dos nossos filhos e porque as suas vidas futuras vão depender, em maior ou menor medida, daquilo que eles receberem de nós.

 

A construção do carácter

 

Os traços do carácter ou da personalidade que uma pessoa apresenta na sua maturidade dependem de muitos factores. Sem entrar em muitos pormenores, poder-se-iam tipificar nos seguintes. No princípio, influi o que adquirimos ou recebemos pelo simples facto de nascer. Cada um de nós é único e irrepetível e portanto apresentamos características no nosso carácter que pertencem só a nós; essa é a nossa singularidade. Outro factor que influi é a trajectória das nossas vidas ao longo dos anos, a súmula de todos os acontecimentos que se dão à nossa volta e que nos vão “configurando” pouco a pouco, as nossas circunstâncias, como diria Ortega y Gasset. O lugar em que nascemos, a situação social ou política do nosso país, as nossas famílias, os amigos, as pessoas que fomos conhecendo e que dalguma maneira nos influenciaram, etc. E por último, podemos pensar também na Providência, de modo que uns e outros vamos por caminhos diferentes devido a elementos ou situações que não podemos controlar.

 

Todos estes factores se vão misturando até produzirem um cocktail bem saboroso que somos nós próprios, agora mesmo, com as nossas virtudes e os nossos defeitos, nem mais nem menos. Ora bem, neste processo, que papel têm os pais? Na medida das suas possibilidades, devem tentar influir, do modo mais positivo que saibam e queiram, na personalidade dos filhos. Como sabemos, há muitos factores que não dependem deles como pais, mas há outros factores em que podem fazer alguma coisa. Não será responsabilidade dos pais, tentar fazê-lo o melhor possível?

 

Dois erros comuns

 

No âmbito da educação, há dois erros que são bastante comuns. O primeiro é a atitude que tomam alguns pais e que se pode resumir assim: “ eu sou o pai e sei perfeitamente o que devo fazer, ninguém tem de me dizer como devo educar o meu filho”. Este é o exemplo típico de pessoas que vivem a educação dos seus filhos em função do que receberam durante as suas vidas e pensam que isso é suficiente para educar correctamente a quem quer que seja. Não precisam de mais nada.

 

O segundo erro é o daqueles pais que, se bem que conscientes de que devem formar-se e aprender, numa questão tão importante como a educação, pensam que se aprende a educar crianças como quem aprende matemática ou ciências naturais. Sem dúvida que é bom ler e instruir-se sobre o assunto, é bom e essencial, mas aqueles pais que se limitam a fazer o que dizem os livros têm pouco futuro como educadores.

 

Há algum tempo, um profissional da educação deu uma palestra a um grupo muito numeroso de pessoas e, quando acabou a palestra, aproximou-se uma jovem mãe e perguntou-lhe qual o momento mais adequado para começar a aprender a educar os filhos. O conferencista olhou para ela, e depois de uma breve pausa respondeu-lhe: “Trinta anos antes, minha senhora”. Os nossos filhos vão aprender, não só daquilo que lhe digamos, mas das vivências que formos capazes de lhes transmitir. Como é possível que o nosso filho não grite com a sua irmãzinha, quando ela lhe tirar os lápis, se nós somos os primeiros a gritar com o nosso cônjuge porque não está pronto à hora de sairmos para uma reunião? Por muito que lhe digamos que não se deve gritar com ninguém, se no dia seguinte o rapaz vê que os seus pais o fazem, não terá dúvidas em fazer o mesmo com a sua irmã.

 

Aprender a educar é bom, mas melhor ainda é aprender a educarmo-nos a nós mesmos, para que os nossos filhos não vejam em nós um receituário do que devem e do que não devem fazer, mas um modelo a seguir; uns pais que se esforçam por viver aquilo que tentam transmitir, que tentam ser coerentes com as suas vidas e que desejam para os seus filhos o mesmo que para as suas próprias vidas. E isto será o que realmente eles irão reter, porque verão um modelo de verdade que os atrairá por si mesmo. Deste modo, essa terna autoridade paterna (diferente do autoritarismo que é uma forma de egoísmo que gera egoísmo) irá influir, por si só, até que, pouco a pouco, conforme vão crescendo e amadurecendo, se vai tornando cada vez menos necessária.

 

O maço de tabaco

 

Era uma situação típica de um domingo depois de almoço. Fomos convidados a casa de uns amigos e depois do almoço, do café e dos doces, passámos ao “salão” para conversar. Cada qual se acomodou como pôde, com um jornal, um cigarro, vendo Televisão, e os mais pequenos com as consolas. Acontece que um dos convidados teve vontade de fumar e lembrou-se que tinha deixado o maço de tabaco em cima da mesa do almoço:

 

“Filho, faz-me um favor: vai à mesa da sala de jantar e traz-me o tabaco que lá deixei”

 

(O filho estava concentrado em “passar de nível “ no seu vídeo jogo.)

 

“Espera pai, estou quase a passar de nível”

“Vá, deixa isso para depois e vai buscar o tabaco ao teu pai!”

“Pai, mas assim perco tudo!”

“Sabes que não me agrada repetir as coisas duas vezes”

“Vou já, pai! Além disso, se o tabaco é para ti, porque não vais tu buscá-lo?”

“Mas que vem a ser isso de responderes ao teu pai? Vai buscar o tabaco antes que eu me aborreça!”

 

Eu gostaria de saber o que pensaríamos nós desta situação, se nos encontrássemos no lugar do rapaz. Veríamos a situação como justa ou pensaríamos que o pai se aproveitou ligeiramente da sua autoridade? O filho não fez mais do que dizer o que dita o bom senso (e atenção, não se trata de uma postura de rebeldia): se és tu que tens vontade de fumar, levanta-te para ir buscar o tabaco, pois quem se esqueceu foste tu. No entanto, por dizer isto, defronta-se com a ira paterna, embora ainda em estado incipiente. Que conclusões pode o rapaz tirar de tudo isto? Há qualquer coisa que não joga: por um lado, os meus pais dizem-me que tenho de ser serviçal com os meus irmãos e os meus amigos mas, por outro lado, o meu pai faz de mim criado e sou eu que tenho de lhe levar os cigarros.

 

Este tipo de raciocínio pode não ser feito conscientemente, mas o que pode acontecer é que esta mensagem, juntamente com outras que vai recebendo durante a sua vida, se vão gravando no seu jovem cérebro e vão constituindo pautas de comportamento. Não será de estranhar, por isso, encontrar situações em que ele tenta aproveitar-se do irmão mais novo mandando-o fazer coisas que lhe correspondem a ele e libertando-se assim de responsabilidades. Claro que não foi isso que os pais lhe quiseram ensinar, mas transmitiram-no indirectamente, em situações aparentemente de pouca importância.

 

Implicações

 

Por isso digo que é particularmente importante aquilo que se transmite aos filhos, em actos quotidianos, desde que nos levantamos - e como nos levantamos - até que nos deitamos - e como nos deitamos. Por isso, para educar os filhos, temos de nos educar primeiro a nós, o que tem algumas consequências, se calhar não muito do nosso agrado:

 

- implica assumir que o “eu sou o pai e sei perfeitamente como devo educar”, não é totalmente certo;

- implica adquirir humildade para aceitar que podemos sempre melhorar e nos encontramos num contínuo processo de aprendizagem;

- implica aceitar que os primeiros a precisar de educação são os pais;

- implica sair de nós próprios para poder ver os nossos filhos como pessoas independentes e autónomas, não como seres que podemos manipular como se fossem marionetas;

- implica ter capacidade para arriscar não ter os filhos sempre ao pé de nós, mas respeitar a sua liberdade, desde que lhe tenhamos dado umas directrizes, as nossas, aquelas em que acreditamos, mesmo correndo o risco de que não façam aquilo que esperamos ou queremos.

 

Por isso, a este modo de encarar a educação, está associado, como comentava, um processo de reciclagem e de aprendizagem. Não se trata de aprender uma cartilha de boa educação para a aplicar de imediato aos nossos filhos, mas é muito importante o que possamos ler e estudar sobre o tema.  Por outro lado, também é muito importante aprender a ser pessoas, estar num contínuo e atento auto-exame, dia a dia tentando crescer cada dia um pouco mais. Se seguimos este caminho, tudo o resto nos será dado por acréscimo, e veremos o fruto nos nossos filhos.

 

Continuando com o exemplo que comentamos acima, não seria melhor uma conversa deste estilo:

 

“Filho, por favor, vai à mesa da sala de jantar e traz-me o tabaco que lá deixei”.

“Espera pai, estou quase a passar de nível”.

“Deixa lá, filho. Vou eu. De qualquer maneira, obrigado”.

 (Ou, inclusivamente, não lhe dizer nada, e se nos apetecia fumar, talvez o mais razoável fosse irmos nós buscar os nossos cigarros).

 

 

 

Alfredo Esteve